Precisamos entender o impacto da Black Friday chinesa no Brasil – e isso inclui a Senacon

O brasileiro ainda conhece pouco sobre os diferentes impactos do Dia dos Solteiros, incluindo no direito do consumidor. Você sabia que pouco mais de 30% de todas as queixas da Shopee no Consumidor.gov.br foram registradas nos últimos 30 dias, período que inclui a black friday chinesa?

Na próxima sexta-feira (26), o consumidor brasileiro terá pela frente a 11ª edição da Black Friday. Embora os principais indicadores ainda não pareçam bons, a expectativa do varejo é imensa para a data. E não é para menos.

A BF é a segunda data mais importante para o varejo, perdendo apenas para o Natal. Segundo dados da consultoria Ebit/Nielsen, especializada em análises do mercado varejista, em dois da Black Friday 2020 (26 e 27 de novembro), o total de vendas no País foi de R$ 4,02 bilhões no e-commerce. Este ano, a expectativa é romper a barreira dos R$ 6 bi.

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No entanto, há 11 dias o consumidor brasileiro já iniciou a ida às compras neste fim de ano na chamada Black Friday chinesa: o Dia dos Solteiros ou 11/11.

Embora os números sejam tímidos no Brasil se comparado a BF, a data vem crescendo em popularidade e não deveria ser desprezada, inclusive sob a ótica de defesa do consumidor – o que, infelizmente, vem ocorrendo por aqui.

Impacto global

O Dia dos Solteiros existe na China desde os anos 1990, porém foi em 2009 que ela se tornou uma data comercial na China sob a promessa de concessão de descontos agressivos. Desde então, a data não parou e já é um evento maior que a própria Black Friday.

A Aliexpress, um dos e-commerce chinês que popularizou a data na China e no Ocidente, registrou este ano um GMV (ou Volume bruto de mercadoria, que é um termo usado no varejo online para indicar o total de vendas em um determinado mercado durante um determinado período) de US$ 84,54 bilhões em 11 dias da campanha do 11/11. Foi o recorde absoluto da companhia.

O valor é assombroso, inclusive se comparado aos resultados da Black Friday nos EUA. No ano passado, a Aliexpress faturou US$ 74 bilhões (R$ 405 bilhões) ou quase cinco vezes mais que o comércio ianque na última Black Friday: foram US$ 9 bilhões de dólares, segundo pesquisa da Digital Commerce 360. Mesmo com os dados da Cyber Monday, um evento satélite e que já se tornou mais lucrativo que a BF, os resultados do comércio eletrônico norte-americano foi de aproximadamente US$ 23 bilhões.

No Brasil, os números da AliExpress também impressionam se comparados com os resultados das empresas que atuam no mercado nacional. Estima-se que as vendas globais do Dia do Solteiro renderiam, em média, 10 vezes mais que as vendas brutas do Magalu em 2020 (até setembro), 15 vezes as da B2W e 5 vezes as do Mercado Livre.

E no Brasil?

No Brasil, o Dia dos Solteiros é tratado como uma espécie de esquenta Black Friday. Os poucos números que existem hoje sobre a data comercial nascida na China mostram que a BF é muito mais representativo, mas a distância está diminuindo.

A reportagem da Consumidor Moderno conversou com algumas consultorias de negócios, mas nenhuma possui dados sobre o evento no Brasil.

Um dos raríssimos exemplos é o levantamento feito pela Ebanx, empresa de Curitiba que processa pagamentos justamente para algumas das mais importantes empresas estrangeiras que participam do Dia dos Solteiros, como é o caso da  Aliexpress, Shien, Shopee, Wish e outras.

De acordo com o levantamento da Ebanx, em 2018, a data resultou em 450 mil ou R$ 79 milhões de reais em vendas. Em 2019, o total de pedidos mais que dobrou: foram 910 mil. No ano passado, o crescimento de 19% no volume de vendas na comparação com 2019.

Além do aumento nas vendas, existem dados que mostram que o tíquete médio ou gasto do brasileiro no Dia dos Solteiros também vem subindo. Na AliExpress, por exemplo, esse volume subiu de US$ 20 para US$ 35 em dois anos, mesmo com a disparada do dólar no Brasil.

No entanto, os números da Ebanx estão longe de representar o verdadeiro volume de negócios praticados no Brasil. Empresas como Magazine Luiza, Mercado Livre e outras também investiram vultosas em mídia paga para divulgar descontos para o 11/11.

E o que isso representa para a defesa do consumidor?

Se os números ainda são pequenos perto de eventos como o Natal e a Black Friday, por que o consumidor deveria se preocupar?

Um dos motivos é a preocupação do próprio poder público com empresas como Shopee e Ali Express, que oferecem produtos vendidos diretamente de países asiáticos e longe do alcance de Procons e a Justiça brasileira.

Em setembro, muita gente deve se lembrar do duvidoso tênis Nike vendido a R$ 35 no site da Shopee. Embora não se saiba a verdadeira procedência do produto, o fato é que calçados da marca norte-americana continuam sendo vendidos a preços bem abaixo do mercado nacional.

A CM identificou o mesmo Nike Air Max 270 vendido a R$ 55,30 na Shopee…

 

… e por R$ 899,99 no e-commerce da Centauro.

Será que datas como o Dia dos Solteiros poderiam aumentar a oferta desse tipo de produto no País?

A Consumidor Moderno procurou órgãos de defesa do consumidor, tais como o Procon São Paulo e a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), que também revelaram uma ausência de informações sobre o volume de queixas na data.

Em resposta, a área técnica da pasta, por exemplo, informou que não existem dados sobre a data. Pior: haveria uma dificuldade técnicas em rastrear as queixas dos consumidores para o Dia dos Solteiros justamente pela proximidade da data com a Black Friday. Este ano, a BF vai acontecer no dia 26 de novembro.

A alegação é curiosa. O intervalo entre o Dia dos Solteiros e a Black Friday será de 15 dias este ano. Se incluirmos a cyber monday, o que é totalmente plausível por ser um evento satélite da BF, o tempo subiria para 18 dias.

Ocorre que o intervalo entre a Black Friday e o Natal não é lá muito diferente – coisa de uns 25 dias. Nesse sentido, fica a dúvida: será que a Senacon teria dificuldade em construir políticas públicas de assistência ao consumidor na Black Friday, principalmente após a alegada dificuldade em processar informações em um intervalo menor que 30 dias?

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A julgar pelos dados disponíveis na plataforma Consumidor.gov.br, da Senacon, seria prudente a pasta ficar de olho nos próprios dados. Pelas informações, a Shopee registrou um total 908 queixas. Desse total, 362 (ou pouco mais de 30%) foram registradas somente nos últimos 30 dias, período que evidentemente incluiu o Dia dos Solteiros.

Além disso, o prazo médio de resposta da empresa para o cliente também subiu: foi de 7,6 (a média de 2021 da empresa) dias para 8 (média dos últimos 30 dias).

Seria uma coincidência uma forte concentração de queixas nesse período? Essa é uma informação que a Senacon não soube informar a reportagem.

Dessas grandes empresas estrangeiras que atuam no Dia dos Solteiros, a Shopee é a única cadastrada no Consumidor.gov.br. A AliExpress, companhia que mais fatura com a data, não está presente na plataforma, muito embora a Senacon tenha mecanismos legais para monitorar essas empresas. Este ano, as redes sociais foram obrigadas a ingressarem no Consumidor.gov.br sob pena de multa administrativa. Isso poderia ocorrer com comércios eletrônicos estrangeiros? Não seria um bom ponto de partida para iniciar o monitoramento do Dia dos Solteiros?


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