Imersão virtual e ilegal: será que teremos um deep metaverso?

Será que teremos uma versão da deep web no metaverso? É o que acredita José Terrabuio Júnior, fundador da Beenoculus, uma das maiores startups em realidade virtual do País. Veja entrevista

Foto: Unsplash

Segundo uma visão popular, a internet de hoje seria dividida basicamente em duas camadas: a superfície, onde estão todos os serviços que acessamos diariamente, e outra mais profunda, a chamada deep web, onde supostamente estariam todo o tipo de prática criminosa – o que não necessariamente é uma verdade.

Hoje, há quem defenda que o metaverso será um sistema operacional computacional e, com ele, virá uma nova internet. Nesse sentido, muitos serviços que contratamos a partir de um navegador poderiam migrar para a realidade virtual simplesmente porque ofereceriam uma experiência digital mais lúdica.

Verdade ou não, já existem pessoas que projetam possíveis cenários para o metaverso a partir de paralelos existentes na internet de hoje. E uma delas é que poderemos ter uma espécie de submundo da realidade virtual ou deep metaverso. É o que acredita José Evangelista Terrabuio Junior, fundador e head de inovação da Beenoculus Techonologies, empresa de Curitiba especializada na produção de conteúdos e até universos em realidade virtual.

Em um bate-papo com a Consumidor Moderno, ele falou sobre a possibilidade de criação de um deep metaverso a partir de grupos da sociedade que irão discordar de futuras tentativas de regulação de ambientes virtuais. Seria uma forma de se rebelar a um movimento regulatório, que, inclusive, existe – e ainda é tímido.

“Assim como existe a deep web, teremos grupos dissidentes que não vão querer esses controles e essas regras. Então, teremos no metaverso mais ou menos o que temos hoje na internet: existe o lado bom e o lado obscuro, que vai surgir com toda certeza”, afirma. Veja a entrevista.

Consumidor Moderno – Muita gente tem falado sobre o metaverso. Elas estão descrevendo corretamente esses espaços?

José Terrabuio Junior – O que as pessoas normalmente entendem como um novo ambiente, uma nova mídia, uma nova plataforma, um novo sistema operacional ou qualquer outro nome que poderíamos dar ao metaverso é, no fundo, uma nova maneira de usar tecnologia a partir de uma experiência que simula a vida real ou tenta chegar próximo do que vivemos no nosso mundo real.

Particularmente, eu gosto da analogia com o filme Jogador Número 1. Embora o futuro apresentado no filme seja meio utópico, há muita coisa no filme que acontece na vida real. Além dos óculos de realidade virtual, existem alguns dos dispositivos e equipamentos sensorizados usados pelo personagem que podemos comprar.

CM – Qual é o equívoco que mais te incomoda quando o assunto é metaverso?

J.T.J – É achar que uma pessoa vai viver no metaverso e que fará uso dessa nova plataforma como parte do cotidiano, inclusive de forma intensa ou demorada.

Assine a nossa newsletter e fique atualizado sobre as principais notícias da experiência do cliente

Existem questões ergonômicas (relação do humano com objetos) e de conforto envolvidas nos óculos que impedem o uso muito longo. Então, particularmente, eu não acho que o metaverso vai matar um celular. Eu não acredito nesse discurso. É um discurso ufanista.

CM – Na sua avaliação, qual será o primeiro uso massificado do metaverso?

J.T.J – O primeiro é o entretenimento, sem dúvida. Esse será o grande uso do metaverso. O uso, como direi, mainstream virá depois e vai demorar se comparado com o uso para o entretenimento. Por exemplo: se eu estou fazendo um treinamento corporativo com os óculos, eu com certeza darei a atenção à plataforma porque eu sei que preciso fazer a coisa certa: é necessário abstrair conteúdo e conhecimento, pois serei cobrado sobre isso.

Mas essa necessidade tem um limite de tempo. No entretenimento você realmente está disposto a fazer isso. Não é uma obrigação, logo você vai usar por mais tempo e com uma frequência maior, limitado a questão de conforto dos óculos, o que ainda é um problema.

CM – O que acha de iniciativas como o Horizon World, do Facebook?

J.T.J – O Horizon World é uma tentativa bacana de juntar o mundo corporativo com o entretenimento. Acho que tudo é válido, é legal e eu mesmo já o usei aqui. São ferramentas que tem o objetivo de tornar o mundo corporativo, que foi psicologicamente abalado com a pandemia, um lugar mais legal, menos doloroso, menos crítico, mais despojado e mais gamificado.

CM – Mas é possível transformar o Horizon em algo maior, talvez um universo ainda mais amplo, segundo apontam especialistas no assunto?

J.T.J – Tudo é possível quando estamos falando em metaverso. Recentemente, eu vi uma entrevista do criador do Second Life (Philip Rosendale) e ele não acredita que as pessoas vão adotar o metaverso como a sua razão de ser e de viver. Porém, eu penso que podemos ter muita coisa bacana no metaverso, assim como ele pensou para o Second Life.

Ao contrário do que aconteceu no passado, a tecnologia propicia experiências melhores pelo fato de termos dispositivos e uma experiência de imersão diferentes de alguns anos. Um exemplo é o 5G, que fornece uma experiência fluida e sem interrupções. O verdadeiro objetivo do Facebook não sabemos  por enquanto, mas existe uma intenção deles e de outras empresas de fincarem a bandeira nessa nova mídia, nessa nova forma de experienciar a computação. E esse é o grande cerne da discussão hoje. E se você for uma rede social, você não pode estar fora disso porque pessoas estarão lá.

CM – O que há de mais novos ou experimental no mundo do metaverso?

J.T.J – Eu gosto muito de volumetria e de criar uma coisa chamada gêmeos digitais do nosso mundo, ou seja, escanear o mundo e gamificar experiências a partir do ambiente real. Acho que essa será uma tendência fortíssima.

Construir gêmeos digitais e jogá-los no metaverso vai propiciar a criação de conteúdos educacionais nunca pensados. Com a tecnologia que temos hoje, você consegue passear dentro de museus com os óculos. Hoje temos dispositivos com seis graus de liberdade (veja a explicação abaixo sobre os graus de liberdade) onde você consegue ver volumetria, consegue olhar atrás de uma estátua, para cima, para baixo ou para os lados. Você pode enxergar detalhes das pinturas. Isso vai revolucionar a educação.

Em tempo: em linhas gerais, grau de liberdade é a capacidade ou possibilidade de movimento de algo dentro de um espaço tridimensional. Ao todo existem seis graus: linear, retilinidade horizontal, retilinidade vertical, pitch (algo como movimento de olhar para cima e para baixo), rotação no plano horizontal e rotação ao redor do eixo de percurso.

CM – No último balanço da Netflix, a empresa apontou, curiosamente, o Fortnite como o seu principal concorrente para o futuro. O motivo seria a possibilidade de oferecer entretenimentos como filmes e shows, o que já aconteceu. O que pensa disso?

J.T.J – A realidade virtual é exponencial. Imagine um show com uma limitação física de 20 mil pessoas. No metaverso, eu não tenho essa limitação, ou seja, é exponencial. Eu posso ir para um show ou esporte por meio de um dispositivo a partir de uma nova experiência.

E se eu não tiver o dispositivo? Imaginemos que no futuro vão existir uma espécie de virtual house, assim como a atual lan house. Você compra ingresso de um show, mas não tem os óculos? Sem problemas.  Você vai para uma virtual house, usa óculos com 6 graus de liberdade. Isso será em um primeiro momento. Isso dará tempo para que ocorra o barateamento dos dispositivos e, assim, ser acessível para todas as pessoas.

Eu tenho conversado com alguns amigos da área de entretenimento e tenho batido nessa tecla: o setor de entretenimento precisa produzir conteúdo para os metaversos. Isso amplia a possibilidade de ganhos com shows: ele ganha com o show ao vivo e também com eventos já gravados,  que teria um custo menor, mas ainda assim seria um dinheiro adicional. Cada show iria se perpetuar.

CM – Toda vez que falamos de novidades, há sempre movimentos de políticos pela regulamentação. Já existem especialistas que apontam e até defendem uma regulação para esses universos. O que pensa sobre o assunto?

J.T.J – Devem surgir comitês de ética e muitas outras coisas no sentido de tentar tornar esse ambiente mais regulado. Nesse sentido, penso que vai surgir uma espécie de deep metaverso ou deep metaverse.

Assim como existe a deep web, teremos no futuro grupos dissidentes que não vão querer esses controles e essas regras. Então, teremos no metaverso mais ou menos o que temos hoje na internet: existe o lado bom e o lado obscuro, que vai surgir com toda certeza.

Eu já tenho visto brincadeiras de todo o tipo na internet sobre o metaverso. Recentemente eu vi uma dizendo que o MST vai invadir terrenos comprados no metaverso. Brincadeiras à parte, penso que regulações podem prejudicar essa ideia que temos hoje. O metaverso precisa ser livre, justamente para que possamos garantir que iremos fazer o que fazemos hoje: é puro entretenimento. Na medida que você regula, você restringe a partir de regras. Se isso ocorrer, pode ser que ela pare de ser um atrativo e não seja tão consumido. Eu já vivo em um país cheio de regras. Não quero isso lá. Eu quero brincar.

Assine a nossa newsletter e fique atualizado sobre as principais notícias da experiência do cliente


+ Notícias

E-commerce: mais consumidores, mais queixas nos Procons

Golpes bancários envolvendo manipulação de vítimas crescem 165%




Acesse a edição:

MAIS LIDAS

VEJA MAIS

ÚLTIMAS

VEJA MAIS