A miséria dos planos de saúde no Brasil

O sistema de saúde privado no Brasil é disfuncional, ineficiente, desfocado e alheio à realidade. Tudo isso com a conivência e a miopia geral da sociedade e das instituições

Foto: Shutterstock

O Brasil é um país repleto de problemas e vícios. Nenhuma novidade nessa afirmação. Nossas mazelas se espalham por diversos setores e afetam diretamente a vida e o desenvolvimento dos cidadãos e das empresas. Ainda assim, o que vemos em curso atualmente no segmento de saúde privada é francamente estarrecedor.

O cenário dos planos e seguros de saúde é de terra arrasada. Isso porque o sistema é disfuncional, ineficiente, obscuro, desfocado e desconectado da realidade. Uma estrutura desenhada para uma sociedade na qual os clientes tinham expectativa de vida de 60 anos, utilizavam procedimentos básicos, o checkup era uma ideia estranha e as doenças degenerativas, que consomem muitos exames e leitos, acometiam uma ínfima minoria. Era fácil pensar na saúde do sistema: os planos eram vendidos individualmente, para pessoas jovens, que contratavam uma cobertura para “imprevistos” e não para cuidar da saúde. Esse desenho prevalece até hoje, porém, para uma sociedade completamente transfigurada.

A expectativa de vida – covid à parte,  é superior aos 77 anos. Saúde e bem-estar são objetivos e prioridade para a grande massa dos trabalhadores minimamente qualificados. O checkup é procedimento regular e as doenças degenerativas e outras crônicas atingem muito mais pessoas, particularmente aquelas que hoje estão na faixa dos 60 aos 90 anos, que infelizmente, por motivos diversos, envelheceram mal, carregando no corpo comportamentos danosos à saúde.

Leia mais: A evolução do consumidor: prioridades mudam de acordo com a geração

Muitos dos idosos de hoje foram fumantes até há uma ou duas décadas, tornaram-se obesos e ingeriram gorduras de todo tipo, mas foram se conscientizando e abandando hábitos ruins para ganharem mais tempo de vida.

O Brasil é um dos países do mundo que envelhece mais rapidamente. Em 2019, a população idosa no país, atingiu 32,9 milhões (dados do IBGE), em 2060, a população idosa será superior à população jovem. Visto que a geração Z demonstra menos ímpeto por casamento e menos ainda pela procriação. Isso fará com que entre 2010 e 2060, a população idosa quadruplique, atingindo 28% do total (ou mais de 50 milhões de pessoas com mais de 65 anos).

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Um sistema saudável à custa da sua saúde

Fazia sentido vender planos individuais para um adulto que iria utilizar mais intensamente sua cobertura por 10 anos (entre os 50 e 60 anos) quando a expectativa de vida era baixa. Com mais gente avançando para além dos 70, 75, 80 anos, utilizando coberturas por 25, 30, 35 anos, os planos de saúde então pensaram em ganhar em escala para “manter a saúde do sistema”.

Pior, durante esse processo de envelhecimento, os planos de saúde ganharam uma agência reguladora para definir “aumentos e reajustes de preços” (a ANS). Como consequência, surgiram as aberrações dos planos coletivos e por adesão, artifícios engenhosos para fugir da regulação e assegurar reajustes generosos, ano após ano, e por faixa de idade. Assim, sem nenhum olhar para o cliente, os planos de saúde tornaram-se então “bancos de serviços de saúde”, com uma abordagem financeira descolada da realidade, desfocada de princípios, sem transparência e perpetuadores de enorme ineficiência.

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Recentemente, vimos movimentações de concentração, onde empresas incorporam umas às outras, adquirindo também hospitais e laboratórios para ganhar escala e obter “sinergias e menores custos”, nos repasses aos procedimentos.

Infelizmente, o cliente paga caro por serviços que ele pode utilizar até determinado momento, em determinada empresa e para determinado procedimento, até que uma fusão prove o contrário. Negociatas se multiplicam, os jornais estampam números de leitos, hospitais, bases de clientes, valores de reajustes, custos crescentes e, rigorosamente, nada vezes nada em relação aos clientes.

A regulação desregulada

Os planos de saúde estão de costas para uma realidade dominada por empresas que são avaliadas, reviradas e escancaradas pela revolução digital. Com a complacência de uma regulação omissa, de legisladores confortavelmente distantes da realidade, utilizando serviços de planos de saúde especialíssimos, contratados por adesão e vitalícios, não há por que buscarem propostas que tornem a saúde privada mais acessível para os cidadãos. Apenas devem manter um patamar mínimo de clientes que não resulte em mais pessoas acessando o SUS, o que demandaria revisões de orçamento penosas (imagine abrir mão de alguns caraminguás do orçamento secreto para ampliar serviços do SUS). Para o cliente, o consumidor, nada sobra.

Ele não consegue saber qual a qualidade real do seu plano, porque laboratório “A” é melhor que o “B”, ou que os planos de saúde precisam direcionar um determinado número de pacientes de pronto-socorro para internações em leitos. Afinal, um leito de hospital custa uns R$ 3 milhões por ano e deixá-lo vazio por algumas noites é prejuízo na certa.

Mas qual a qualidade do leito, quantos procedimentos foram bem-sucedidos em cada especialidade oferecida por um hospital? Aliás, quantas internações realmente necessárias ocorreram no hospital? E quantos exames tiveram diagnósticos corretos? Qual o grau de satisfação dos pacientes com o atendimento de um PS? Nada disso. Nada voltado para desfechos.

Vejam: quando você entra em uma clínica, hospital ou laboratório, você se encaminha para “a triagem”, tratado como um boi pronto para o abate. E enquanto você se esforça para acompanhar os reajustes de planos engessados, que oferecem coberturas mil, a maioria delas inúteis, hospitais são descredenciados de uma hora para outra, laboratórios, idem, médicos reclamam que “recebem pouco”. Disfuncional é apelido.

Qual a solução para essa miséria absoluta? Antes de mais nada, combater o privilégio dos legisladores e seus planos de saúde vitalícios, para que assumam a tarefa de realmente debater seriamente como tirar o mercado de saúde de sua caixa preta.

É necessário estipular critérios claros de qualidade, baseados nos desfechos e na transparência da informação referente aos serviços prestados e desfrutados. Planos com indicadores ruins devem ter direito a reajustes menores, planos com indicadores muito bons podem atingir um teto de reajustes, mas sempre buscando a eficiência. E essa eficiência parte de mecanismos de saúde preventiva e ativa, com clínicos gerais acompanhando os clientes de forma proativa e não reativa.

saúde

Clemente Nóbrega é especialista em inovação e há anos defende nova abordagem para a saúde privada

O nome do jogo é informação. Não sou eu quem digo, é Clemente Nóbrega, especialista em inovação e que há anos vem defendendo uma nova abordagem para a saúde privada, um segmento anacrônico, que ignora a informação e, portanto, é avesso ao cliente. É de posse da informação transparente que podemos criar oportunidades para novas startups e novos modelos de empresas de saúde que possam “fatiar”, desacoplar os diversos serviços, para universalizar o bem-estar, os cuidados e as terapias mais indicadas para cada perfil de cliente.

A ideia central de um bom plano de saúde não passa por hospitais com uma hotelaria formidável ou champanhe no quarto. Essa é a miopia que domina a consciência de uma parcela da sociedade, que parece imune à uma situação de descalabro generalizado. A sociedade precisa entender que um plano de saúde qualificado passa pela eficiência com que atende, resolve e, substancialmente, antecipa problemas. O foco não está na terapia posterior, mas no bem-estar prolongado. Hoje, infelizmente, as empresas que oferecem planos de saúde perpetuam a doença, olhando para os números do balanço, passando longe do bem-estar individual e coletivo.

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