A guerra é híbrida: uma análise sobre os ciberataques à Ucrânia

Entenda o cenário cibernético da Guerra entre a Rússia e a Ucrânia e como ela pode afetar as outras nações em todo o mundo, inclusive o Brasil

Foto: Pexels

Nesse vai e vem de declarações, mísseis, posicionamentos e bombardeio, as últimas semanas têm deixado o mundo todo em alerta. Afinal, com o estouro da guerra entre a Rússia e a Ucrânia e a tensão de uma terceira guerra mundial, os olhos ficaram atentos a algo que não se via há algum tempo: um conflito armado tão próximo à Europa, televisionado, coberto e acompanhado de perto por meio da internet de uma forma única e nunca vista.

Ainda refém de negociações, ambos os países seguem em conflito armado. E, além do claro prejuízo aos envolvidos — ao todo, estima-se que mais de 2 mil civis ucranianos já foram mortos —, há também um receio pela geopolítica do mundo e a triste experimentação de uma guerra em que os ataques, no planeta em que a tecnologia faz parte da evolução, já não são somente por terra, água e ar, mas também pelo canal digital.

Essa quarta força de ataque foi responsável por um novo tipo de temor e desarmamento da Ucrânia por parte da Rússia, posto que vivemos uma sociedade muito voltada para a digitalização — e não seria diferente com as forças do Estado. Cerca de 15 dias atrás, por exemplo, o governo ucraniano informou que dois dos mais importantes websites ligados às forças militares e dois outros ligados ao sistema bancário do país sofreram ataques cibernéticos. E isso muda um pouco as “regras”.

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A guerra travada por códigos e programação

Ucrania Guerra

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De acordo com o economista e doutor em relações internacionais pela Universidade de Lisboa, o que vemos agora é que a digitalização trouxe novas nuances à guerra. E isso, é evidente, não veio somente entre as nações envolvidas nos conflitos armados, mas também ao resto dos estados do planeta.

“Essa grande tecnologia e a capacidade rápida de integração entre os países foi fundamental. Mas o mais importante foi, principalmente, o fato de todos os países ocidentais concordarem que as sanções foram o melhor jeito de atingir o presidente Vladimir Putin sem criar uma terceira guerra mundial ou incitar um conflito nuclear”, explica o especialista. “Isso ficou muito provavelmente mais fácil, essa uniformidade, por causa da tecnologia, da internet”.

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Para os países em conflito, entretanto, o uso de uma guarnição cibernética também promove um novo estilo de guerra que pode ser tão devastador quanto as bombas e mísseis. E, como explica o especialista, na Rússia essa forma de ataque online acaba se tornando uma supremacia de controle. “A China e a Rússia têm uma supremacia em ataques cibernéticos por serem regiões onde, digamos assim, não há leis, não há regras para o uso da internet. Até mesmo os governos americanos e europeus tentam criar o seu exército cibernético, mas como não há um conjunto de regras preestabelecidas, os russos e os chineses têm a supremacia nisso, o que deixa a situação mais arriscada”, completa Lucena.

Ciberataques russos e como isso desestabiliza a Ucrânia

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Foto: Igor Lucena

Com mais propriedade para incitar ataques, a Rússia também abre uma frente potente para atacar a Ucrânia por meio da internet. Para se ter ideia, o ciberataque dos sites ucranianos há duas semanas, por exemplo, é chamado de DDoS, conhecidos em português como Ataque Distribuído de Negação de Serviço. Na prática, eles funcionam como um sobrecarregamento dos servidores: os hackers constroem uma carga elevada de acesso a essas páginas e as tornam, por consequência, indisponíveis aos usuários.

Uma apuração enviada a BBC explica, ainda, que um desses ataques foi realizado por hackers amadores, identificados como “patriotas russos”. Além disso, essa mesma comunidade também enviou ameaças de bombas em forma de mensagens a escolas ucranianas.

No último domingo (27), Anatoliy Tkach, encarregado de negócios da Ucrânia no Brasil, também afirmou que o site oficial da Embaixada Ucraniana por aqui apresentou problemas. Boa parte dos e-mails de funcionários ficaram sem funcionamento porque, segundo ele, houve ataques cibernéticos massivos.

Vale destacar que a Microsoft anunciou recentemente que detectou ciberataques à infraestrutura tecnológica da Ucrânia no dia 24 de fevereiro, algumas horas antes de Vladimir Putin ordenar que o país fosse invadido. “Nos últimos dias, fornecemos inteligência sobre ameaças e sugestões defensivas para as autoridades ucranianas sobre ataques a vários alvos, incluindo instituições e fabricantes militares ucranianos e várias outras agências governamentais”, informa a Microsoft em um comunicado, publicado no blog oficial da empresa.

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Em comunicado, o governo russo negou envolvimento nessas ações.

“Mas não há dúvidas: o ataque e as destruições ucranianas têm fundamento nos russos e até mesmo um ataque aos portos e as distribuições de gás e petróleo na Holanda e na Alemanha precederam esse tipo de crise”, comenta Igor Lucena. “Por isso, essa tal digitalização mundial de tudo tem que ser colocada em xeque às vezes. Por que até que ponto a digitalização de tudo na nossa vida não impede o País de ter uma situação ainda mais complexa?”, questiona.

Ação e reação: a entrada do Anonymous na guerra da
Rússia e Ucrânia

Anonymous

Foto: Pexels

Com as denúncias sobre ataques cibernéticos russos a domínios ucranianos, outras entidades começaram a agir. O Anonymous, grupo de afinidade descentralizado baseado em hackativismo, acabou se posicionando a favor da Ucrânia. Na última segunda-feira (28), a comunidade assumiu a responsabilidade por uma série de ciberataques a veículos russos de comunicação, incluindo agências estatais de notícia.

A maior parte das mensagens exibidas continha incentivos para encerrar a guerra. “Dentro de alguns anos, viveremos como na Coreia do Norte. Por que precisamos disso? Para que Putin acabe nos livros de história? Não é nossa guerra, vamos detê-la!”, dizia uma das mensagens. O grupo também já anunciou que teve sucesso em 300 invasões de sites russos.

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De acordo com o tabloide britânico Metro, que ouviu mídias ucranianas, um grupo de hackers pertencente ao Anonymous passou a oferecer bitcoins a soldados russos que entregarem tanques de guerra. Ao todo, eles arrecadaram cerca de 1 bilhão de rublos russos, o que equivale a R$ 44 milhões. “Soldados russos, todos que querem viver com suas famílias e crianças, e não querem morrer, o Anonymous coletou RUB 1,225,043 em bitcoin para ajudá-los”, diz a mensagem.

“O Anonymous não é uma rede interligada, óbvio, mas ele é uma rede importante, principalmente porque tem a capacidade de atingir outros flancos que a gente não conhece. Do meu ponto de vista, essa manifestação deles é importante, porque eles mostram uma espécie de defesa em relação aos menos favorecidos. Eles estão do lado da Ucrânia”, acrescenta Lucena.

A guerra que vai além das bombas e alerta para cibersegurança

No fim, é notório perceber o quanto a situação da Ucrânia nos ensina sobre a forma como a guerra existe hoje: mais do que tanques, armas, bombas e mísseis, lidamos com uma guerra híbrida. E isso também é um forte indicativo de como a cibersegurança precisa evoluir para impedir ciberataques, da mesma forma como as nações precisam ficar mais atentas a isso.

“Um dos pontos de combate internacional que o Brasil tem que se preparar também é a ciberguerra”, conclui Lucena. E mais do que real, ela já está em funcionamento.


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