ESG

Quais são as barreiras para o consumidor PcD?

Pessoas com deficiência representam 15% da população mundial. Só no Brasil, de acordo com dados do último censo realizado pelo IBGE (2010), são cerca de 45 milhões de pessoas com deficiência, denominados pela sigla PcD.

Esse consumidor vem aumentando seu poder de consumo porque está cada vez mais conquistando espaço no mercado de trabalho, graças às iniciativas de inclusão e a Lei de Cotas, que completou 30 anos em 2021. No entanto, mesmo com esses números expressivos, o poder de compra do consumidor com deficiência ainda é subestimado pelo comércio em geral. As barreiras para o consumo são inúmeras. A acessibilidade para as compras, por exemplo, ainda não evoluiu o suficiente.

De acordo com Carolina Ignarra, CEO e fundadora da Talento Incluir, um ecossistema de soluções focadas na diversidade e inclusão, a informação desatualizada sobre o poder aquisitivo das pessoas com deficiência impede o crescimento de ofertas de produtos e serviços para um público que recebe cada dia mais oportunidade de trabalho e, consequentemente, de consumo.

“As pessoas com deficiência estão cada vez mais sendo gestores das próprias carreiras profissionais. As possibilidades que estão sendo abertas nas empresas que têm como meta aprimorar suas culturas de inclusão e diversidade, além de simplesmente cumprir a Lei de Cotas, estão trazendo benefícios inegáveis ao poder de compra”, diz Carolina Ignarra.

Leia mais: Pessoas com deficiência e marcas: o match realmente inclusivo

“Ao contrário do que os comportamentos capacitistas entendem como verdades, as pessoas com deficiência estão descobrindo um mundo de possibilidades que o comércio ainda não conseguiu acompanhar na mesma velocidade. Existe uma necessidade de consumo para pessoas com deficiência ter mais saúde e qualidade de vida. Vale ressaltar que não queremos apenas comprar remédios, próteses e órteses, cadeiras de rodas e produtos de higiene pessoal. Consumimos cultura, lazer e educação!”, salienta a executiva.

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As barreiras do varejo para o consumidor PcD

Para a CEO da Talento Incluir, hoje, o consumidor precisa usufruir de mais acessibilidade para adquirir produtos e serviços com equidade, de forma justa, segura e sem distinção devido a sua condição.

“A falta de acessibilidade torna o nosso consumo muito mais difícil. Programar uma viagem de férias em família, por exemplo, é muito desafiador para pessoas com deficiência. As dificuldades começam já na compra da passagem, pois eu não consigo viajar no assento mais acessível do avião com meu marido e minha filha ao lado. Tenho direito a um acompanhante, isso se não tiver outra prioridade precisando daquele assento. Se eu fizer questão de me sentar ao lado deles, preciso ser carregada. As reservas de hotéis não acontecem online para as acomodações acessíveis, eu preciso ligar pro hotel. Assim seguimos a viagem toda fazendo mais que os outros turistas, para termos o atendimento que precisamos”, exemplifica a Carolina Ignarra.

Para ela, as barreiras para o consumo ainda são inúmeras e começam a partir da atitude. Não saber lidar com as diferenças das pessoas com deficiência é a principal barreira encontrada. A partir daí os empecilhos seguem na comunicação e nas estruturas físicas e digitais.

“De um atendente de telemarketing, um site de compras a uma campanha publicitária, o que queremos é saber que somos considerados para a criação e lançamento de um produto ou serviço. As marcas têm se comunicado com demais marcadores sociais como de raça, gênero, comunidade LGBTQIA +, religião, mas ainda não encontramos muitas iniciativas que visam atender ao público com deficiência”, argumenta a executiva.

E o varejo digital, está adequado para atender ao
consumidor com deficiência?

De acordo com Carolina Ignarra, ainda há pouco preparo e intenção de tornar acessível os marketplaces que já existem. Contudo, com a pandemia, a digitalização do consumo que já estava em transformação acelerou, e os usuários digitais passaram a exigir mais acessibilidade, para incluir todos os tipos de consumidores.

Mas ainda há um longo caminho a seguir. Uma pesquisa realizada pelo Movimento Web Para Todos, mostrou que o número de sites brasileiros aprovados em todos os testes de acessibilidade representa menos de 1% do total.

A maioria não está adequada para consumidores que necessitam de recursos de acessibilidade para realizarem suas compras. E isso acontece mesmo com a aceleração digital que a pandemia trouxe. Foi nesse contexto que surgiu a ideia da criação do UinHub, uma plataforma que reúne produtos, serviços e conteúdos para o consumidor com deficiência.

A iniciativa tem como objetivo conectar consumidores com deficiência, empreendedores que tenham negócios relacionados a esse público, criar oportunidades e influenciar pessoas.

Esse ecossistema, uma plataforma da inclusão, reúne 25 lojas e cerca de 800 produtos, serviços e conteúdo sobre acessibilidade, saúde, cultura, educação, empregabilidade, esporte, lazer, mobilidade, vestuário, entretenimento, direitos, redes de apoio, entre outros.

“Percebemos uma real necessidade de reunir uma cadeia de fornecedores para oferecer produtos para esse nosso público, com melhores preços, mais modernos e mais úteis para cada perfil, sem o aspecto hospitalar que tradicionalmente é encontrado nas lojas específicas que vendem equipamentos para consumidores com deficiência”, explica a CEO.

Contudo, antes de decidir investir na plataforma, Carolina Ignarra tentou fazer parcerias com plataformas já existentes, que mostraram resistência em investir em acessibilidade.

“Então, nós seguimos o caminho: primeiro formamos uma rede de fornecedores muito importante para o sucesso do negócio. Buscamos o que já existe de melhor no mercado e ainda inovações que podem ser produzidas aqui e fora do país. Além disso, o site conta com toda a tecnologia de acessibilidade para possibilitar que pessoas com deficiência tenham autonomia e segurança para realizar suas compras”, reforça a executiva.

Os 30 anos da Lei de Cotas

O tamanho da importância da Lei de Cotas está refletido na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), que aponta que cerca de 90% das pessoas com deficiência contratadas formalmente estão em empresas que são obrigadas a cumprir o Art.93° da Lei 8.213/91.

Para Carolina Ignarra, isso significa que, se tem pessoas com deficiência trabalhando hoje, no mercado formal, muito (ou quase tudo) se deve à Lei de Cotas.

“Os dados da RAIS evidenciam que a inclusão não foi pela conscientização, mas, sim, pela obrigação, pela força da lei, que hoje representamos 1,1% (534.992 profissionais) do mercado formal de trabalho. Somente a partir de 2007, quando a fiscalização do cumprimento da reserva legal tornou-se obrigatória em todas as unidades da federação, é que houve um salto de contratações (52,93% entre 2009 e 2017, segundo a RAIS)”, afirma a CEO.

“E, mesmo com a Lei de Cotas, até hoje só conseguimos preencher metade das reservas previstas e muitas empresas ainda resistem em contratar pessoas com deficiência. Temos cerca de 5 milhões de profissionais aptos ao trabalho e que estão desempregados. O que falta para equalizar isso? Conscientização, além da imposição?”, questiona Carolina Ignarra.

A importância da pessoa PcD ser vista como um consumidor é essencial. Que neste Dia do Consumidor o varejo enxergue essa população como trabalhadora, capaz e importante para fazer a roda da economia girar. Só é preciso dar a oportunidade, tanto de trabalho, quanto de consumo.

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