Batman ou o triunfo da experiência lúgubre

O novo filme do Cavaleiro das Trevas é um ensaio sobre a desesperança e a falta de sentido em um mundo onde esperança é um luxo para poucos

Foto: Reprodução

“Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor”. É praticamente certo que os autores do novo filme do Batman, não conheçam os versos da maravilhosa canção de Nelson Cavaquinho, mas eles exprimem a imensa tristeza que se derrama durante as três horas de projeção.

Aqui não se trata de fazer julgamentos sobre a qualidade do filme (modestamente, gostei da película. Como cinema, não é melhor que a trilogia vibrante do herói dirigida por Cristopher Nolan, porém, é uma leitura muito coerente e interessante do icônico personagem). A ideia aqui é propor uma visão e uma reflexão a partir deste novo filme do mais lendário e bem arquitetado dos super-heróis.

Este Batman, dirigido por Matt Reeves, é lúgubre, soturno, úmido e espesso. A escuridão é um elemento central da história, tão presente e dominante que é impossível a ignorarmos. Na verdade, o escuro é um dos personagens, uma analogia aos tempos trevosos que atravessamos atualmente.

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Uma leitura possível é que a luz, o calor, a esperança não existem onde o sentimento negativo predomina. Batman não se sente um herói, antes se orienta por uma missão: vingar o assassinato dos pais. Claro, Batman/Bruce Wayne não se permite sorrir, ele apenas enxerga o seu caminho ostentando a dor da perda. As cicatrizes de suas lutas noites a fio são quase um um autoflagelo. Ele se pune e se culpa sem trégua.

Quando o Charada espalha terror pela cidade, fazendo Gotham City olhar para a própria alma corrompida, o velho conluio entre mafiosos, políticos e corruptos, Batman inicialmente tem mais um vilão para continuar sua vingança. Mas este Charada, bem construído por Paul Dano, é movido por ressentimento.

Sua cruzada é contra os privilegiados e aqueles que se recusam a olhar para além de suas bolhas. Esse é um dos temas fundamentais do nosso tempo: a ignorância do outro, particularmente de quem é abandonado, órfão, desabrigado, refugiado (como vimos recentemente no asqueroso episódio de um deputado em “missão” na Ucrânia comentando acerca das mulheres vítimas do conflito com a Rússia).

Para o Charada, a solidariedade, a compaixão e a comiseração só existem para e entre aqueles que são privilegiados e não para os comuns. A questão permanece aberta, como uma ferida vertendo sangue aos poucos, infeccionando a sociedade: porque os comuns e os ordinários são invisíveis para a casta dominante? Na visão do “vilão”, a esperança é um luxo para poucos, roubada da maioria pela insensibilidade coletiva. Logo, o Charada não é uma etapa da jornada vingativa de um Batman desapegado de si mesmo. É justamente quem vai mostrar o quanto Batman precisa aprender a conviver com a dor para encontrar algo que o faça enxergar além da escuridão.

A melancolia que Batman se dedica a expressar pousa sobre o destino de três crianças: Bruce Wayne (seu alter-ego), que teve sua família e seu futuro arrancados por um crime inexplicado, que talvez tenha se originado em uma concessão à corrupção; o garoto também órfão, mas abandonado em um quarto com outros 30 na mesma época do assassinato dos pais de Bruce; mas sem voz ou nome é o filho do prefeito, que perde o pai assassinado no início da trama. As cidades estão repletas desses dramas, dessas dores e dessas feridas. Quando as deixam abertas sem tratamento, elas irrompem, gritam e causam dor.

Assim, Batman é um filme que não dá respostas. Apenas comenta a insensatez. A figura do herói atormentado, que evita um propósito até se dar conta de que apenas a vingança nada faz para aplacar a dor e a perda, é também uma forma de olharmos para o quanto nós mesmos não nos perdemos em nossas bolhas, abraçando a escuridão e renegando a luz.

As tragédias humanas, a guerra, a pandemia, a fome, a perda, a ausência, soa elementos que tornam a realidade escura, lúgubre e insuportável. Mas um momento no filme, um breve momento comum rompe essa desilusão e traz alívio. O braço estendido do herói para retirar as pessoas dos escombros é uma metáfora do que nos torna humanos e nos dá sentido, a colaboração, a compaixão e o desprendimento. Ao fim, sempre há um novo dia e, quem sabe, a chance de vermos um pouco de luz para clarear nossas mentes atormentadas.

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