Favelas, consumo, inclusão digital e realidade brasileira: um debate inesquecível

Noite de abertura d’A Era do Diálogo conta com a presença de Celso Athayde, fundador da Cufa e CEO do Favela Holding

Foto: Douglas Lucena

Em uma noite especial de abertura da edição de 10 anos do evento A Era do Diálogo — que ficou, por dois anos, restrito ao meio digital —, o Grupo Padrão, mantenedor da Consumidor Moderno, retomou o evento presencial no Hotel Renaissance com um presente: o debate “O valor da inclusão digital como elemento indispensável à cidadania”.

A discussão, muitíssimo importante ao cenário atual dos negócios no Brasil, contou com a presença de Renato Meirelles, Sócio-fundador do Instituto Locomotiva e do Data Favela, e o ilustre Celso Athayde, Fundador da Central Única das Favelas (Cufa) e CEO do Favela Holding.

“Está na hora das empresas terem um olhar diferente às pessoas da favela. Quando essa pessoa trabalha, ela não é carente, não podemos olhar para ela como se nós fôssemos superiores. Elas têm uma renda baixa e são naturalmente empreendedoras, mas também são consumidoras”, comenta Athayde durante o debate.

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Foto: Douglas Lucena

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A vida como a principal e fundamental professora de todos os processos

O emocionante discurso de Celso Athayde foi marcado por sua trajetória dentro dos negócios e como sua carreira, uma grande história de superação, avançou até a criação do Favela Holding e da Cufa, que traz uma visão muito mais acurada do mercado das favelas e periferias.

“Quando falamos de diálogo, dessas conectividades, eu não sou um especialista de favelas. Sou apenas uma pessoa que cresceu em uma favela no Rio de Janeiro e viveu debaixo de um viaduto, vendo tudo o que existe de ruim nessa imensa desigualdade em que vivemos”, inicia.

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Celso Athayde / Foto: Douglas Lucena

A história dele foi uma trajetória de superação: desde a vida com pais alcoólatras à época em que morou debaixo do viaduto da Madureira (Rio de Janeiro). “Com 12 anos de idade, era ali que eu tirava todo o meu sustento, de furtos, de coisas ruins que vocês podem imaginar. Até que teve uma chuva horrível e eu fui para um abrigo público, eu ficava lá apenas na parte da noite”, prossegue Athayde.

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Um pouco mais velho, as coisas mudaram. “Quando eu fiz 14 anos, eu fui para uma favela chamada ‘Favela do Sapo‘, no Rio de Janeiro. Até então, eu não tinha nem escola. Trabalhei para um traficante que aprendeu a ser ‘comunista’ na cadeia. Eu não trabalhei vendendo droga não, eu trabalhei para ele em uma ‘rinha de gente’, uma briga entre as pessoas em que outras pessoas apostavam. Foi quando ele viu que eu era um cara diferente e me passou uns contatos para outro trabalho”, desenvolve o executivo.

Algum tempo depois, ele atuou como camelô de volta à Madureira. “Eu vendia produtos da “Nike” e da “Adidas” e comprava essas mercadorias em São Paulo. Nessas idas e vindas, eu conheci um cara, chamado William Santiago que já tinha um projeto muito legal relacionado às favelas. Eu acabei virando empresário, assessor de várias bandas imensas, como os Racionais MC”, explica.

E foi daí que nasceu a Cufa e o Favela Holding, que hoje ajuda uma série de pessoas nas favelas dos 27 estados. Um projeto que ajudou mais de 15 milhões de famílias nas favelas e segue reafirmando a importância desse público enquanto consumidor.

“As pessoas que vem da onde eu venho, eu não consigo falar da linguagem que o mercado fala, da ESPM. Mas a régua deles enquanto consumidor já subiu. Se a favela produz 120 milhões, ou a gente divide com ela toda a riqueza que ela gera, ou a gente continua nesse processo mal aproveitado pensando somente na miséria e não é bem assim”, finaliza Athayde.

Uma realidade digital que está no imaginário das empresas, mas não é exatamente a do Brasil

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Foto: Douglas Lucena

Ao início da discussão, Meirelles apresentou alguns dados muito relevantes ao cenário brasileiro de uma parte imensa da população brasileira. Um deles é a percepção que o público que mora nas periferias e nas favelas é uma parte consumidora muito mais relevante do que se pensa: gera mais de 120 bilhões ao ano apenas com consumo.

E, na pandemia, que gerou um abismo ainda maior de desigualdade, esses consumidores se viram em um cenário distante: a ascensão do e-commerce e dos processos digitais. Tudo isso em um público que, em sua grande maioria, está classificado como subconectado ou desconectado — conforme apontam os dados da PWC no novo estudo “O Abismo Digital no Brasil”, realizado em parceria com o Instituto Locomotiva — ou seja, tem acesso limitado ou nenhum acesso à internet.

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Mas ainda que essa seja a realidade desse público, é preciso ressaltar seus potenciais de consumo que, ainda mais hoje, não podem ser ignorados pelas empresas. “As favelas têm o consumo de dois Uruguais, mais de 120 bilhões ao ano. Mas a maior parte dos clientes que vocês (empresários) desenham a jornada, não são esses caras aqui. É preciso entender que elas fazem parte de um tipo de desigualdade que, além de ser desnaturalizada, é real e invisível muitas vezes”, complementa Meirelles.

Assim, sendo esse um público que necessita de maior atenção, o executivo também comenta a importância de ter acesso à internet para, de fato, integrar o mercado de consumo em sua totalidade. “O Brasil de fato é um país com grandes pessoas conectadas, mas qual é a qualidade dessa conexão? Quando você aperta esse cenário, percebe que não é bem assim. Menos de 3% dos internautas brasileiros falam inglês. De todos os brasileiros com carteira assinada, só 8% trabalham na frente de um computador”, conclui o sócio-fundador do Instituto Locomotiva.

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