Por que é tão difícil mudar um comportamento?

A transformação de mindset é penosa, pois envolve questões físicas e emocionais

Foto: Pexels

Já se vão quatro meses de 2022 e aquela promessa de fim de ano ainda está na gaveta, não é mesmo? De pequenas às grandes coisas, qualquer mudança exige energia e esforço do cérebro e entender isso é fundamental para compreender porque é tão difícil mudar um comportamento.

O que é mais fácil: começar um exercício físico agora ou acreditar seriamente que irá começar na semana que vem? A neurocientista do Supera, Livia Ciacci, explica que o comportamento estável, também chamado de hábito, só pode ser modificado ou eliminado com muito esforço, pois não se trata somente de ações involuntárias. Além disso, os hábitos de consumo indicam características de cunho individual, visto que se formam na memória de cada pessoa.

“A necessidade de memorizar comportamentos sempre foi primordial para nossa sobrevivência: ter o hábito de evitar locais escuros e preferir alimentos mais calóricos foram extremamente relevantes em ambientes selvagens. Há uma importante relação entre os conceitos de hábito e de memória”, destaca.

Entretanto, mesmo memorizando e executando quase automaticamente uma série de comportamentos, o ser humano é um excelente aprendiz e tem a possibilidade de escolher como agir e desenvolver o equilíbrio entre instintos e a razão.

Mas como esse comportamento escolhido é novo e não tem referências anteriores, é necessário aprendê-lo e praticá-lo até que faça sentido e se torne um hábito retido na memória.

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A transformação do comportamento

Se o cérebro memoriza condutas para garantir sobrevivência e economizar energia, mudar qualquer uma delas vai gerar desconforto e exigir autocontrole.

Alguns autores já tentaram criar uma receita de como mudar um comportamento ou descobrir quanto tempo leva para criar um hábito, mas não funciona bem assim. O autocontrole necessário no processo de mudança de comportamento ou de criação de um novo hábito é um recurso finito.

“Todos os dias recarregamos nossa capacidade de autocontrole, desde que tenhamos entre sete e oito horas de sono de qualidade, sem consumir drogas ou álcool, com nutrição adequada e atividade física em dia. Então, para usar o autocontrole na mudança de comportamento, é preciso estar com essa capacidade carregada ao máximo e não gastar totalmente com outras demandas que exigem esse esforço. O processo não será igual para todas as pessoas e, por isso, também devemos buscar dar um passo de cada vez”, alerta a especialista.

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O tempo do cérebro

A verdade é que o cérebro precisa de tempo para que o intelecto desenvolva novas formas de pensar e agir para constituir novas memórias, e com elas, novos comportamentos. Mais importante que contar os dias, é manter a constância. Hábitos são construídos por comportamento, recompensa e gatilho.

“O maior erro das pessoas é esperar dar vontade de mudar para começar a mudança. O cérebro é preguiçoso, todo novo comportamento exigirá uma luta interna contra as vontades imediatas”, detalha.

A boa notícia é que quanto mais se repete o novo comportamento, menor vai ficando o esforço e menor a percepção de dor. E ao conseguir cumprir a mudança, mesmo que seja só o primeiro passo, estar aberto para perceber e valorizar o benefício que essa mudança trouxe vai dar significado e facilitar que o cérebro memorize aquilo como um comportamento padrão.

Como transformar algo doloroso em prazeroso?

Não basta marcar uma data ou implantar uma mudança na força do ódio, pois o processo precisa de significado. Se seguir uma dieta é doloroso demais e a pessoa não internalizou o benefício que isso vai gerar, sua manutenção não será sustentável.

Nesse caso, seria mais eficiente apenas trocar alguns ingredientes da rotina por outros e seguir fazendo pequenas mudanças. O maior obstáculo no início da mudança é a disposição para insistir. A insistência é o segredo para encontrar o prazer.

“Quando divido uma meta em etapas menores e mais fáceis, tenho mais chances de conseguir atingir as metas e sentir a sensação de que “eu posso”, o que alimenta a autoconfiança e manterá meu cérebro”, conta Livia Ciacci.

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Como mudar um comportamento ainda neste ano!

A ação repetida é que forma o hábito. Sendo assim, a profissional do Supera elenca três dicas baseadas em neurociência para tornar os objetivos mais fáceis de serem atingidos:

1. Cultive mini hábitos: um mini hábito é uma conduta pequena e simples que a pessoa vai se obrigar a cumprir todos os dias. O caráter “fácil demais para dar errado” vai garantir a leveza necessária para evitar a procrastinação e terá muita força para manter a constância desse comportamento.

2. Aceite que terá que repetir e repetir: o cérebro valoriza a eficiência e gosta da rotina: é um processo gradativo e constante.

3. Invista em autoconhecimento: cada comportamento está ligado a uma necessidade emocional. Conhecer quais emoções estão ligadas a hábitos que quer mudar é um passo importante para criar hábitos que sejam tão eficientes quanto os antigos para que o cérebro faça a substituição.

O comportamento e as marcas

Em consonância com tudo isso, Arthur Igreja, especialista em tecnologia, inovação e tendências, pontua que o comportamento também é instigado por marcas e movimentos sociais. E são diversos fenômenos que impactam na sua criação.

“O comportamento do consumidor precisa ser algo em massa e representativo. Na verdade, isso é decorrente de mudanças nas interações sociais e tecnológicas, de momentos econômicos e de transformações culturais. É muito mais fruto desses movimentos maiores do que qualquer coisa. E claro, ele tanto é criado ou pode ser mudado por meio de ações, da criação de produtos, do desenvolvimento de canais diferentes, de novas formas de atendimento e personalização”, frisa.

Já em relação à marca, quanto mais ela aprender com os elementos que interferem na criação ou modificação de comportamento, mais pode usar dessas estratégias para vender mais, ter engajamento e gerar proximidade com os consumidores.

“É fundamental que a empresa esteja muito atenta a isso, participando de um ciclo constante de aprendizado. O engajamento com o público funciona como uma retroalimentação, onde são feitos testes, modificações e coleta de resultados”, finaliza Arthur Igreja.


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