Do Cyberpunk 2077 ao metaverso: o futuro da vida é imitar a arte

Entenda como a evolução tecnológica do consumo e do comportamento começa nos games e livros de ficção científica

Foto: Cyberpunk 2077

Em termos de inovação tecnológica, é imprescindível destacar que as grandes obras de ficção científica “antecipam” tendências e direcionam o caminho da evolução da tecnologia. Livros, filmes, séries e jogos; é um fato que a tecnologia é guiada pelo social e ele, por sua vez, se conecta intrinsecamente com a forma como concebemos a evolução humana dentro da arte. Temos nela uma bússola que aponta para o futuro — ou para o metaverso, como preferir.

Nesse cenário, ter como conclusão quea arte é a transfiguração da vida pode ser algo equivocado. Se já nos anos 1960, gigantes da literatura de sci-fy previam a criação da internet, escreviam sobre realidades nas quais a inteligência artificial seria nosso guia do dia a dia e, em 1980, o tão falado metaverso já crescia no imaginário dos autores de games — e evoluiria a ponto de se tornar nossa segunda alternativa de realidade —, é de se notar que a moral dessa evolução tecnológica venha, na verdade, no caminho oposto.

Não é a arte que imita a vida, mas a vida que se baseia na arte. E isso tem ficado cada vez mais claro na própria criação dos videogames que, hoje, estão caminhando para a criação e viabilização do metaverso, bem como outras tendências tecnológicas que se fundem de forma profunda com o comportamento humano. Cyberpunk 2077, jogo da CD PROJEKT RED e Warner Bros. Games, está aí justamente para provar essa narrativa.

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A narrativa humana e tecnológica pelo olhar cyberpunk

Na última quinta-feira, a Warner Bros. Games apresentou, em parceria com a Worth Global Style Network (WGSN), autoridade em tendências globais para mercados de consumo, um estudo inédito sobre a relação da cultura cyberpunk e os mais recentes comportamentos no mundo digital do último ano.

O relatório elenca, a partir de uma análise da sociedade, oito movimentos que provam que a nossa realidade tende a ser cada vez mais híbrida — e conectada, portanto, com a realidade de Night City, cidade criada para o jogo Cyberpunk 2077. Entre esses movimentos, destacam-se tendências futuras que começaram a despontar após a aceleração digital da pandemia.

Mas antes de irmos aos dados, acho que vale destrinchar um pouco melhor esse game e entender por que sua narrativa é tão importante e atual, se analisada sob a óptica da sociedade em convivência constante com a tecnologia e da construção de um futuro propositalmente mais phygital.

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Um jogo com mais de uma década de desenvolvimento

Para começo de conversa, Cyberpunk 2077 parece um jogo recente, posto que foi lançado em dezembro de 2020. No entanto, ele começou a ser pensado há mais de dez anos. E o motivo gira em torno de sua complexidade de mundo aberto: o jogo cria uma narrativa que concebe, em um estilo cyberpunk, uma cidade controlada por grandes corporações. Night City, como é chamada, apresenta, contudo, um severo problema com as pessoas que vivem à margem da cidade e se conectam com gangues.

A parte da criação tem um enfoque muito interessante em diversidade. Cada gangue tem sua familiaridade com a tecnologia — inclusive com implantes diversos, nanotecnologia, entre outros futurismos populares da ficção científica —, mas também se apresenta em grupos minoritários, que se dividem em diferentes e únicos estilos. Ao todo, sete gangues são inseridas no game, e contam com personagens asiáticos, mulheres, pessoas negras e inspiradas nas afrodescendentes, ex-militares, latinos, entre outros.

Foto: Gangues / Cyberpunk 2077

Dessa forma, o jogo traz muito do que uma cidade já marginalizada, mas vivendo seu ápice tecnológico, com tendências que vemos surgir nos últimos meses e que se apresentam como uma genuína realidade para os próximos anos. Vale destacar que, Cyberpunk 2077 faz o uso de avatares hiper personalizados para os jogadores e insere o usuário em uma realidade totalmente digital, que pode ser narrada tanto em primeira quanto em terceira pessoa.

Muito complexa e explorada, a cidade tem boa parte das complicações de outra comum nos Estados Unidos e o jogador passa por problemas semelhantes aos vividos aqui, com uma diferença de tempo nítida: Night City vive um futuro distópico e, ao que tudo indica, caminharemos rumo a ele em breve.

De certa forma, a jogabilidade e os processos são muito semelhantes ao metaverso, o que nos conecta, de novo, ao estudo da WGSN.

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Movimentos que já estavam em pauta há anos

metaverso

Fonte: WGSN

É evidente que tecnologias como o metaverso, NFTs, a própria digitalização expressiva da internet, a chegada do 5G ou mesmo esse caminho em busca do consumo phygital (ou híbrido) são opções recentes. Mas não custa nada dizer que esses termos já eram pensados, inclusive como modelo de negócio, há mais de uma década.

E é claro que os autores de livros, filmes, desenvolvedores de games e grandes pensadores da sci-fy já traziam esses elementos à margem da ficção. Com o Cyberpunk 2077 não foi diferente: mesmo lançado no meio da pandemia, o jogo aponta para uma série de tendências que já são cogitadas para a nossa realidade — e em um futuro bastante próximo.

No estudo da WGSN, as oito tendências se reúnem em comportamentos já atuais, mas que devem ganhar uma nova proporção nos próximos anos: coleções de grandes marcas digitalizadas, influencers digitais, filtros e identidades visuais, experiências musicais interativas, ativismo phygital, impacto das NFTs, estética do futuro descolonizado e digi-destinos gamificados.

1. Coleções de grandes marcas digitalizadas

Foto: Reprodução The Fabricant

Desde o início da pandemia, as marcas — sobretudo as de luxo — trouxeram uma nova realidade do mundo fashion: e se as roupas não forem mais físicas? Para trazer um aspecto mais sustentável e compatível com a era das redes sociais e eventos online, inúmeras empresas apostaram na manufatura digital de peças de roupa.

A vantagem, além de evitar um consumo desenfreado — até porque ninguém mais quer repetir o look em fotografias —, é trazer esse dinamismo quase ilimitado de opções, posto que o digital consegue ultrapassar algumas barreiras encontradas nas produção de roupas físicas.

Esse conceito é muito bem trabalhado no Cybnerpunk 2077 e eis o genial motivo: todo o jogo é construído a partir de estéticas visuais e digitais. Se a maior parte dos games já trabalhava com as “skins” como ramo de personalização, Cyberpunk eleva o nível desse sentimento e traz uma concepção ainda mais aberta ao estilo futurista.

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2. Influencers digitais

Foto: Reprodução Magazine Luiza

Bem, se os influenciadores de hoje já causam tanto impacto, por que não trazer uma versão digital deles? Várias empresas já apostam nessa iniciativa como uma maneira de trazer um reconhecimento de marca mais humanizado — e a tendência é que, em especial para as marcas, o número de influencers digitais cresça ainda mais.

São exemplos a Lu, da Magazine Luiza, a Nat, da Natura, CB, da Casas Bahia, entre tantos outros que vem sendo aperfeiçoados com o passar do tempo.

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3. Filtros e identidades visuais

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Foto: Pexels

Essa convivência tão diária e transformadora do digital tem se tornado inclusive um problema. Isso porque a avatarização e a personalização das próprias feições, corpo e imagem, como um todo, já são muito modificadas por filtros. E isso tem interferido na própria autopercepção das pessoas.

A interação com os outros — e isso fica ainda mais evidente nas redes sociais — já não é mais comprometida com o real: as fotos são editadas, as próprias lives ao vivo são embebidas de filtros. É uma verdadeira transformação a realidade por meio do digital, voltado para uma personalização mais interna.

E isso também é uma questão em Night City, posto que a personalização até mesmo com implantes tecnológicos gera um tipo diferente de reconhecimento de bando entre as gangues, por exemplo.

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4. Metaverso: experiências musicais interativas

Foto: Getty Image

Já está mais que evidente que a forma de consumir a música mudou muito ao longo dos anos. Quase dois séculos atrás, a principal forma de escutar artistas e canções era por meio do vinil. Na década de 1960, a inovação era a fita cassete, já em 1980, o CD foi o principal caminho. Essa jornada passou por MP3, MP4, smartphones e hoje, é dominada pelo streaming.

E quando a gente achava que esse realmente seria o futuro da música, o metaverso chegou para transformar essa trajetória mais uma vez: agora os festivais acontecem cada vez mais em uma nova realidade virtual, que além de trazer expansões diferentes do físico, explora uma conexão mais forte com os artistas.

Um ponto bem relevante a ser destacado é que toda a trilha sonora do Cyberpunk 2077 foi pensada para intensificar as ações do jogo. Ou seja, ela faz parte da história com a mesma presença que o próprio jogador. Você vê alguma semelhança com o nosso futuro?

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5. Ativismo phygital

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Foto: Unsplash

Esse sem dúvidas é um caminho sem volta. Se antes o digital não era tão presente nas mobilizações políticas, hoje, ele é um aspecto fundamental do ativismo. E essas manifestações, mais do que importantes, são, por natureza, phygitais.

O conceito parece delicado, mas a explicação é mais fácil do que se imagina. Se uma mobilização começa pelas redes sociais e ganha fôlego, eventualmente ela vai parar nas ruas, vai gerar engajamento das marcas, vai migrar para uma repercussão para além do online. E o mesmo pode acontecer no caminho oposto: uma manifestação pode ter seu início nas ruas e tomar outra proporção quando adentra o digital.

Esse é um dos principais atributos do Cybepunk 2077, posto que toda a narrativa do jogo é voltada para o ativismo tecnológico.

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6. O impacto dos NFTs

Foto: Unsplash

Se a arte é tão presente no nosso cotidiano a ponto de modificar a forma como construímos o nosso futuro, nada mais justo que ela saia dos modelos tradicionais e migre para uma aparência mais… tecnológica, digamos assim.

Dia após dia, o mercado de NFTs cresce e abre portas para outros segmentos além da arte. É possível patentear as peças, mudar a forma como nos relacionamos com as obras, tornar seus autores mais relevantes.

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7. Estética do futuro descolonizado

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Foto: Cyberpunk 2077

Esse é um dos pontos-chave do Cyberpunk 2077: definir uma estética para grupos minoritários que culmina em um futuro descolonizado. Eis a explicação: o conceito de descolonização tecnológica e social vem, em específico, para tonar as pessoas donas das próprias narrativas. A ideia aqui é justamente privilegiar as histórias que são sempre deixadas de lado.

Isso vem modificando a forma como temos acesso às diferentes culturas e o protagonismo desses espaços vem em um estilo futurista. Ou seja, muito inspiradas nessa cultura cyberpunk mesmo.

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8. Digi-destinos gamificados no metaverso

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Foto: Divulgação

Mais uma vez o metaverso mostra que não veio à toa: já se fala em algo chamado turismo online, que consiste em trazer as viagens para o meio virtual. Essa proposta ficou mais ativa na pandemia, posto que o próprio turismo ficou meses paralisado — mas o desejo de expansão do consumidor permaneceu.

Com o metaverso, viajar pode ser algo muito mais simples: bastam um óculos VR e o acesso à internet para vivenciar experiências intensas e bem mais imersivas do que pequenos vídeos de locais filmados com a câmera 360º.

E como tudo listado acima, essa modalidade também começou nos games. Afinal, viajar por um mapa sempre foi algo comum nesse universo.

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A vida imita a arte. E a arte ganhou uma expansão única

Dito tudo isso, fica o questionamento: já sabemos que a vida imita a arte, que são as obras criadas pela imaginação que propulsam ideias extraordinárias, como verdadeiras bússolas, para guiar o futuro da evolução humana por meio da tecnologia. Mas em um universo no qual a própria arte ganhou um avanço inédito, quais serão os limites da criação humana?

Uma das mais famosas frases de Arthur C. Clarke, criador de “2001: uma Odisseia no Espaço”, define o limite como algo variável — e ela que se aplica muito bem a toda narrativa tecnológica que estamos prestes a vivenciar: “A única maneira de se definir o limite do possível é ir além dele, para o impossível”.

E a construção da nossa narrativa de consumo é uma constante ultrapassagem de linhas.


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