Investidores da geração Z buscam ganhos de curto prazo em meio à turbulência financeira

Jovens até 25 anos também têm comportamento financeiro mais arriscado. Principal motivação é “ficar rico”

Foto: Shutterstock

Investimentos com ganhos de curto prazo, mais arriscados e com a intenção de enriquecer de forma rápida. Segundo pesquisa feita pela MagnifyMoney, empresa americana focada em oferecer ferramentas de auxílio para o investidor tomar as melhores decisões financeiras, este é o perfil de investimento da geração Z.

Em comparação com as gerações mais velhas, o grupo formado por jovens de 18 a 25 anos é o que mais escolhe investir para “ficar rico”. “Finanças são uma grande fonte de estresse para a geração Z, que cresceu durante uma recessão e começou a entrar no mercado de trabalho durante uma pandemia. Como resultado, muitos jovens têm aversão a dívidas e prioriza a estabilidade financeira em curto prazo ao invés de poupar para o longo prazo”, é a interpretação do resultado feita pelo relatório.

O economista e docente da Faculdade de Tecnologia de São Paulo (FATEC), Paulo André de Oliveira, também explica que a história econômica aponta que após grandes crises da humanidade, como pandemias e guerras, há uma tendência das pessoas se tornarem mais consumistas e menos poupadoras. “Sem contar que as perspectivas de futuro estão, de fato, piores”, diz.

De acordo com o levantamento da MagnifyMoney, a geração Z é ainda a que mais tem o objetivo de aprender a investir, dado que reflete este início de planejamento da vida financeira.

Em contrapartida, é a que menos pensa na aposentadoria: apenas 35% investem com o intuito de poupar para o futuro, contra 62% da média das outras gerações (millennials, geração X e baby boomers). A prioridade é o agora.

“Essa geração está muito mais sujeita ao bombardeamento da mídia e à obrigação de fazer sucesso, ao padrão de ostentação de celebridades, esportistas, influencers. Então, essa intenção de ficar rico rapidamente é reflete uma falta de conhecimento de como as coisas funcionam, pois está se jogando com risco e com uma probabilidade muito pequena”, comenta o economista.

Ele retoma até o fenômeno dos anos 1990, com os yuppies nos Estados Unidos, que também investiam com risco e em alguns casos conseguiam um retorno alto e rápido. “Na minha opinião, é algo que está se repetindo, com o agravante da intensa exposição às mídias sociais”.

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Quem é o investidor da geração Z no Brasil

Enquanto a pesquisa da MagnifyMoney joga luz ao comportamento do investidor jovem americano, que lida com aspectos específicos da realidade do país, como débitos estudantis, por exemplo, outros dados ajudam a traçar o perfil da geração Z brasileira quando o assunto são finanças.

A pesquisa Raio X do Investidor Brasileiro 2020, realizada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em parceria com o Datafolha, mostrou que o grupo ainda tem muito a crescer e aprender no mundo de investimentos. Ela ouviu 3.400 pessoas da população economicamente ativa das classes A, B e C de todas as regiões do país entre novembro e dezembro de 2020.

Segundo o levantamento, 51,8% dos entrevistados da geração Z declararam não saber nada sobre investimentos – é o grupo etário que menos tem conhecimento sobre o assunto.

Neste mesmo sentido, a maioria deles, representada por 58,3%, não guarda dinheiro de forma alguma. Já 7,8% até poupam, mas não aplicam os recursos em produtos financeiros. Entre os que investem, 5,1% optam pela bolsa de valores e 3,8% em títulos públicos via Tesouro Direto.

O economista Paulo André de Oliveira comenta este novo perfil da geração Z investidora. “Hoje, o jovem conta com mais opções de aplicação financeira, temos os bancos digitais, é possível aplicar com volumes mais baixos. Além disso, ele tem acesso a ferramentas que as gerações anteriores não tinham. Só que a regra básica continua a mesma: a capacidade de fazer poupança, no sentido de gastar menos do que ganha, e ter educação financeira para aproveitar todas essas novas oportunidades”.

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Atração por criptomoedas

A pesquisa Raio X do Investidor Brasileiro 2020 também trouxe um dado interessante sobre a confiança da geração Z em moedas digitais. De acordo com o documento, ela supera a das demais gerações: 2,8% dos investidores jovens aplicam em criptomoedas, percentual mais alto que nos outros grupos.

Para o relatório produzido pela MagnifyMoney, que chegou a colocar atenção neste interesse específico dos mais jovens, a desconfiança geral das instituições financeiras tradicionais e as preocupações quanto interferências governamentais fazem a estrutura descentralizadas das criptomoedas atrativa aos nascidos pós-1995.

Já o professor Paulo André de Oliveira lembra que a preferência conversa com a ambição da geração Z de ficar rica. “Eles acham que vão resgatar 1000% a mais dali uma semana. Não deixa de ser um investimento de risco”, completa.

Geração Z também está na bolsa de valores

Ainda que a maioria das pessoas da faixa entre 18 e 25 esteja começando a vida financeira e aprendendo a investir, cada vez mais sua presença se faz sentir na bolsa de valores. De acordo com dados divulgados pela B3, o número de investidores desta geração saltou de 16 mil em 2016 para 516 mil em 2021. Hoje, eles representam 1,24% de investidores registrados na B3, com um valor em ativos que chega quase a R$ 6 bilhões.

Por outro lado, a ânsia na busca por ganhos rápidos faz com que a geração Z que já está na bolsa penda para o comportamento de risco. Uma pesquisa do Banco Barclays, respondida por 2007 pessoas que já investem, revelou que cerca de 21% dos integrantes da geração Z dizem estar investindo para tirar vantagens do mercado, enquanto 16% querem especular para ficar rico rapidamente.

As características refletem também nos prazos das aplicações, já que metade dos respondentes dessa geração planeja resgatar seus investimentos em, no máximo, cinco anos.

“Esse comportamento é perigoso, precisaria haver bom senso e bastante conhecimento. Ir no palpite não dá certo. A gente vê no cinema, mas grandes retornos em curto tempo são raros. A vantagem deste tipo de investimento é que, sim, é possível ganhar uma ‘bolada’, mas também é muito fácil perder dinheiro. Por isso as aplicações devem ser balanceadas”, reforça o economista.

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*Por Carolina Vieira.


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