Por que uma empresa de e-mail criptografado poderá ser a antítese do Google?

A Proton, uma empresa suíça, anunciou serviços que combatem algumas práticas comerciais usadas pelas big techs. Até o propósito da companhia é contra o Google

Crédito: Unsplash

Até a semana passada, Protonmail era o nome de uma empresa que tinha como principal serviço a oferta de um e-mail criptografado usado por aproximadamente 70 milhões de usuários. O serviço virou um sucesso, principalmente após o avanço do debate mundial sobre a segurança cibernética e a proteção de dados e que normalmente tem como vilões as big techs.

Nesta quarta-feira, muita coisa mudou na empresa, inclusive o nome. Agora, a companhia atende pelo nome de Proton. Além disso, ela anunciou que o seu propósito é tornar a internet um lugar menos vigiado e, para isso, topa combater as práticas comerciais utilizadas por empresas como o Google.

A construção de uma nova superfície

Embora a empresa não diga oficialmente, o fato é que a Proton já é apontada como uma espécie de antítese do Google em quase tudo. E nada disso é um chute da imprensa americana ou algo acidental. Há realmente um plano de negócios orientado a oferecer serviços digitais criptografados, o que realmente evitaria uma vigilância das big techs.

Na prática, a ideia seria construir uma nova superfície da internet com camadas de privacidade, algo que, em tese, contraria a rede mundial acessada e organizada no Ocidente pelo Google.

Para isso, além do nome, a empresa também anunciou novidades no portfólio da companhia. Um deles é um serviço por assinatura que inclui e-mail, calendário, banco de dados e serviço de mensagem mensagens. Tudo, claro, criptografado. Há, inclusive, uma rede VPN.

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Discurso forte

Com exceção da VPN, esses são serviços justamente oferecidos gratuitamente (ou nem tanto assim) pelo Google. Se até aqui o antagonismo ainda parece turvo para muita gente, as diferenças ficam ainda maiores no discurso da Proton em seu site.

Nele, o discurso é feroz e claramente direcionado para as big techs, embora nenhuma delas seja efetivamente citada. Fica claro que se existe empresa orientadas ao propósito ambiental, a motivação da Proton é combater o mau uso corporativo dos dados pessoais.

“Desde que foi criada no CERN, em 1991, a World Wide Web revolucionou nossas vidas. No entanto, para muitos de nós, a única maneira de se beneficiar da internet hoje é entregar grandes quantidades de dados pessoais a empresas que priorizam os lucros em detrimento da privacidade. Em muitas partes do mundo, os governos abusam desses dados para limitar a liberdade de seus cidadãos.”, afirma a Proton em seu site.

O discurso da companha fica ainda mais eloquente quando a própria história da companhia é contada.

A Proton foi fundada por pesquisadores do CERN, o gigantesco acelerador de partículas subatômicas localizado nas fronteiras entre a Suíça e a França que, como bem lembrou a empresa, foi o local do surgimento da internet como a conhecemos. No fundo, quem viu o surgimento e o desenvolvimento da internet de perto, saberia bem os efeitos colaterais que viriam em um segundo momento.

CEO cita big techs

Mas se toda essa rivalidade ainda deu a impressão de ser circunstancial, existe o discurso do próprio fundador e CEO da companhia, Andy Yen, sobre o tema. E as recentes entrevistas delas são bem mais diretas.

Em uma delas, concedidas nesta semana a Wired, ele acusou a Apple de tentar “monopolizar a privacidade” ao redor dos seus produtos. “O que a Apple está basicamente alegando é que você precisa nos deixar continuar usando as práticas da loja de aplicativos porque somos a única empresa no mundo que pode obter a privacidade correta. É uma tentativa de monopolizar a privacidade, o que não acho que faça sentido.”

Já contra o Facebook, a acusação é um pouco mais trivial: a tal proteção de dados. “Se você olhar para o processo da FTC contra o Facebook, a teoria é que privacidade e competição são dois lados da mesma moeda. Se você não está satisfeito com as práticas de privacidade do Facebook, qual é a mídia social alternativa que você pode acessar além do Facebook e Instagram? Você realmente não tem muitas opções. Precisamos de mais jogadores por aí. Se eles tivessem que competir, então a competição forçaria a privacidade a ser um ponto de venda.

E, como não poderia ser diferente, sobrou até para o Google. “Hoje, o Google controla o sistema operacional Android, que é usado pela maioria das pessoas, e eles podem pré-carregar todos os seus aplicativos como padrão em seus dispositivos de usuário. Portanto, eles já têm uma enorme vantagem porque os usuários não alteram os padrões”, afirma.

Pelo jeito, a ideia de serviços voltados para a construção de uma internet sem vigilância deve ser o negócio do futuro. E a Proton parece ser uma forte candidata a liderar esse movimento.


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