O cenário da saúde privada no Brasil: um peso desmedido no bolso do consumidor (e das empresas também!)

O reajuste para o plano individual e familiar segue nas alturas e 75% das empresas brasileiras sofreram impactos nos custos do plano de saúde com a pandemia

Tempo de leitura: 4 minutos

30 de junho de 2022

Foto: Unsplash

Desde a chegada da pandemia no Brasil, a saúde ganhou uma nova dimensão na vida do consumidor. Além da necessidade de assistência médica para os mais de 32 milhões de pessoas contaminadas com a Covid-19, o isolamento social causou algumas estranhezas ao setor, que envolveram (e muito) os planos de saúde individuais, familiares e empresariais.

Em um primeiro momento, em 2020, a resposta do consumidor — com medo da contaminação — foi diminuir o uso do plano de saúde individual. Em 2021, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) inclusive autorizou um desconto de 8,19% nos planos de saúde, momento inédito e histórico dentro do setor. E, no caso dos planos empresariais, as próprias empresas entraram em acordo com o Governo Federal e congelaram os reajustes durante a pandemia, sob a condição de que poderiam somá-los depois no pós-pandemia.

O resultado, dois anos depois, foi tanto uma mudança de comportamento do consumidor, que passou a usar mais o plano de saúde para manutenção do bem-estar e busca de uma vida mais saudável, assim como o tratamento de doenças e procedimentos “atrasados” devido ao isolamento,  quanto uma elevação histórica no preço: em 2022, o aumento para os planos de saúde individuais passou os 15,5% (o maior dos últimos 22 anos) e o percentual foi ainda pior para os planos empresariais — há casos isolados, inclusive, que confirmam uma elevação de quase 300%. Somado a tudo isso, o Supremo Tribunal de Justiça (STJ) ainda definiu que o rol da ANS é taxativo, ou seja, as operadoras não terão a obrigação legal — salvo algumas exceções — de bancar tratamentos e doenças que ficaram de fora do rol.

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Diante de todo esse cenário, uma parte considerável das corporações teve que readaptar seus planos de saúde para encaixá-los dentro das finanças corporativas. Um estudo da HR Trends 2022 aponta, por exemplo, que 75% das empresas sofreram impactos nos custos do plano de saúde com a pandemia.

Planos de saúde empresariais: um aumento difícil
de encaixar nas contas

Ainda que a ANS tenha estabelecido um teto de 15,5% para o reajuste dos planos de saúde em 2022, boa parte das operadoras realizou um reajuste acima do estipulado: entre 16 e 19%, segundo a Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abrange). E, agora, esse repasse pesa no bolso da empresa (e do consumidor).

“Em decorrência da postergação de procedimentos, como cirurgias e tratamentos médicos durante o período mais crítico de isolamento social, algumas empresas que não enfrentaram alta na sinistralidade talvez sofram em breve os impactos em suas contas. Entender estes novos cenários e como as organizações estão lidando com isso é fundamental para a tomada de decisões táticas e estratégicas no que tange a gestão de pessoas”, comenta Fernando Verderano, head de Benefícios da Propay, que encomendou a pesquisa HR Trends 2022.

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Outro ponto que encareceu o valor dos planos de saúde foi a recorrência de atendimentos psiquiátricos durante a pandemia. Com um aumento expressivo de novos casos de ansiedade e depressão, assim como episódios recorrentes de Burnout — que finalmente foi reconhecida como doença de trabalho pela Organização Mundial de Saúde (OMS) —, os planos também sentiram uma curva de pedidos de consultas com psiquiatras e acompanhamentos com psicólogos.

A pesquisa afirma que pelo menos 45% das empresas entrevistadas para o estudo afirmaram oferecer programas para saúde e qualidade de vida, com foco em doenças emocionais.

Leia mais: Brasil lidera casos de depressão e ansiedade na pandemia

Com o aumento do preço vem também o aumento da qualidade… né?

Um levantamento realizado pelo partido Rede Sustentabilidade mostra que, apesar do aumento repentino no uso dos planos de saúde, o percentual de crescimento pode ser bastante desmedido. De 2000 até este ano, o aumento acumulado desse serviço ao consumidor foi de 542%, muito superior à inflação acumulada nesses 22 anos — 318%.

Leia mais: Em 22 anos, o preço do plano de saúde individual cresceu 542%

No entanto, o repasse do aumento ao consumidor final não foi acompanhado sequer de uma melhora nos serviços. Prova disso foi a suspensão da venda de mais de 70 planos de saúde da Amil, Unimed Rio, Unimed , Norte/Nordeste, Unimed Vertente do Caparaó, Biovida, Esmale, Santo André e Saúde Brasil devido às reclamações dos clientes no primeiro trimestre desse ano.

A ordem foi dada pela própria ANS e começa nesta quinta-feira (30). De acordo com a associação, as operadoras só poderão retomar as vendas quando comprovarem melhora na assistência ao cliente. No total, a ANS destacou que as oito operadoras punidas tiveram mais de 37 mil reclamações somente no primeiro trimestre deste ano.

Evidentemente que nem todas as operadoras promoveram um atendimento ruim ao cliente, mas, diante de um aumento tão expressivo no valor dos planos de saúde, há de se notar que não houve uma melhora tão notória de qualidade que justifique o percentual de 15,5% — e até mais para planos empresariais.

Leia mais: Assustado com a alta de 15,5% do plano de saúde individual? Será pior com o empresarial

O rol taxativo da ANS a relação com os planos de saúde brasileiros

Desde a decisão do STJ, inúmeras comunidades e famílias iniciaram questionamentos e protestos para pacientes que precisam do tratamento para determinadas doenças e procedimentos específicos que constam fora do rol taxativo da ANS. E o resultado, até então, teve saldos positivos.

No caso da pressão das pessoas com transtornos globais de desenvolvimento, que envolve o Transtorno do Espectro Autista, a ANS determinou que os planos de saúde garantam cobertura. “Para a cobertura dos procedimentos que envolvam o tratamento/manejo dos beneficiários portadores de transtornos globais do desenvolvimento, incluindo o transtorno do espectro autista, a operadora deverá oferecer atendimento por prestador apto a executar o método ou técnica indicados pelo médico assistente para tratar a doença ou agravo do paciente”, afirmou a ANS em nota ao público.

Leia mais: ANS garante tratamento para pessoas com autismo. A decisão foi política ou técnica?

Junto dessa decisão, também foram favorecidos as pessoas que necessitavam de medicamentos para doenças degenerativas. Outra inclusão que também já consta no rol taxativo é a aplicação do contraceptivo injetável.

Além disso, a Diretoria Colegiada da ANS também anúncio, nesta semana, que está avaliando a autorização para 18 pedidos de exames e medicamentos que ainda não constam no rol. Ao todo, a lista já conta com mais de 3.360 itens.


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