Até mesmo os festivais de cinema estão se reinventando

A digitalização está chegando a todos os segmentos da economia, mudando inclusive a cultura e o entretenimento. Entenda o impacto nos maiores eventos do cinema

Para os amantes da arte cinematográfica, os grandes festivais de cinema que acontecem todos os anos em cidades como Cannes, Veneza e Toronto são considerados uma tradição extremamente aguardada. Marcados por glamour, tapetes vermelhos e a presença de muitos convidados, o cenário desses eventos mudou completamente este ano por causa da pandemia de coronavírus: boa parte precisou ser cancelado ou migrado para o ambiente digital.

No começo de junho, o Festival Internacional de Cannes divulgou os 56 filmes que compõem seu selo oficial de aprovação para 2020. O evento, que inicialmente estava programado para maio, está em sua 73ª edição e, pela primeira vez na história, descartou a possibilidade de ser realizado presencialmente. Por isso, alguns dos filmes serão exibidos em outros eventos futuramente.

A importância de um festival para o universo do cinema

Um dos grandes objetivos de um festival é dar visibilidade aos filmes que ficaram prontos e não chegaram aos cinemas. Muitas das obras que aparecem em um evento como o de Cannes, por exemplo, só conseguem alcançar uma notoriedade maior devido a essa oportunidade.

Humberto Neiva, programador cultural do Espaço Itaú e coordenador do curso de cinema da Faculdade Armando Alvares Penteado (FAAP), explica que o episódio é importante tanto para quem está competindo, como para quem está somente na exposição.

“Funciona como uma vitrine para seu trabalho. Cannes, Veneza e Berlim, além do festival, possuem um mercado onde as pessoas negociam seus filmes. Então, não necessariamente é interessante só para quem está na competição, mas, é benéfico para todo o mercado na cidade. Lá, existem vários representantes de todos os países, como se fosse uma feira gigante com estandes onde você pode ver quais filmes podem ser negociados, comprados e vendidos”, afirma ele.

O que se perde quando um festival é cancelado?

Cancelar um festival é extremamente prejudicial para a indústria como um todo. Além da visibilidade, o local também funciona como uma troca, uma oportunidade para os participantes fazerem contatos e networking. Muitas vezes, para alguns diretores, isso pode ser mais importante que ganhar um prêmio. Segundo Humberto, a premiação é uma consequência, mas a experiência é muito maior.

“Com o cancelamento, o mercado é impactado, pois ficará mais difícil vender um filme para muitos. Ali circula um mundo inteiro de distribuidores, exibidores e produtores procurando algo novo. Além do mais, lá passam filmes que talvez nunca passe novamente naquele lugar. Ou seja, pode ser que tenha filme incrível, que não entre em cartaz. O festival da essa oportunidade de presenciar filmes que podem não ir para grandes cinemas”, comenta.

A era da visibilidade online

Ainda não se têm muitas informações sobre como será a organização de todos os eventos relacionados ao universo cinematográfico. O Festival Varilux de Cinema Francês, por exemplo, estava anteriormente programado para os dias 4 e 17 de junho, mas a nova data ainda não foi divulgada. No entanto, como medida momentânea, o Varilux disponibilizou 50 filmes franceses em uma plataforma de streaming gratuita. A programação está disponível até o dia 27 de agosto.

“É a primeira vez que isso acontece e é muito bom. Acho que com o isolamento o mundo viu o virtual de uma maneira diferenciada. Quando a pandemia chegou, pensamos que não conseguiríamos fazer nada e o mundo continuou a girar, claro que com suas dificuldades, mas redescobrimos a internet, principalmente  as pessoas que não trabalhavam com esse mecanismo ou que não tinham conhecimento. Agora está todo mundo nessa onda online”, afirma Humberto.

No YouTube, é possível acompanhar produções incríveis com o “We Are One: a Global Film Festival, que reúne mais de 100 filmes. Disponível até o dia 7 de junho, a programação é composta por títulos de mais de 35 países. Escolhidos em conjunto pela organização dos grandes festivais do mundo, alguns dos destaques são estreias dos documentários “Iron Hammer”, sobre a atleta chinesa de vôlei Jenny Lang Ping e “Ricky Powell: The Individualist”, que conta a história do conhecido fotógrafo americano.

“Acho que esses festivais virtuais realmente podem ser tendências após a pandemia, porque existem filmes que são mais interessantes ou possuem uma linguagem apropriada para uma tela menor, assim como tem os que são para as telas maiores. Então, acredito que os festivais online podem acontecer paralelos com os presenciais. É uma opção que pode ser mais rápida e traz uma dinâmica que um festival presencial não tem – evita, por exemplo, custos muito altos de hospedagens e a organização de um evento gigante”, pontua.

O momento de explorar a criatividade

filmes

Além de ser uma alternativa para amenizar os prejuízos da arte, suprindo a demanda de alguns filmes que não tinham onde serem expostos, os festivais online são considerados democráticos. Apresentados de forma gratuita, eles podem atingir uma grande massa de público que não conseguiria comparecer à evento grande, por exemplo.

De acordo com Humberto, os dois formatos – físico e virtual –  se complementam e podem andar juntos no futuro, mas há, mais do que nunca, a necessidade de as companhias serem criativas na hora de planejar a exibição dos longas.

“Penso que estamos em uma época de criatividade. Temos que utilizar esse momento mais introspectivo, em que estamos sozinhos em casa, para nos reciclarmos, pensar em novos projetos e tentar utilizar o tempo de forma criativa. Quando nos vemos em uma sinuca de bico precisamos ser criativos, não é? Esse festival online é um exemplo de criatividade que partiu de um momento em que todo mundo está debilitado em casa e preocupado com o que está acontecendo. Esse é o momento de criar e colocar o seu intelecto para funcionar”, conclui o especialista.

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