Netflix aponta o dedo na cara do Facebook e do Youtube

Série “Don’t Fuck With Cats: Hunting an Internet Killers” mostra como as redes sociais são parte de ações de sadismo, horror, tortura e morte apenas oferecendo a plataforma como palco

A sinopse da Netflix cumpre o papel de vender: os vídeos terríveis de um criminoso levam um grupo de pessoas a iniciar uma caçada arriscada com destino a um submundo sombrio. A série “Don’t Fuck With Cats: Hunting an Internet Killers” conta a história de usuários do Facebook e do YouTube que, usando apenas as ferramentas das redes sociais, investigam e descobrem, antes da polícia, a culpa de um psicopata assassino que por pelo menos dois anos espalhou em escala global vídeos de tortura e morte de gatinhos, deixando pistas da premeditação de assassinato de pessoas.

Mas, o sucesso recente da Netflix, revela muito mais do que a caça real de Luka Magnotta, o garoto de programa que ganhou fama e grupos de haters por publicar livremente o que ele chamava de “filmes”, mas que eram registros sádicos de maus-tratos e mortes chocantes de gatinhos, contrariando uma regra tácita da internet que dá título à série de quatro episódios: não ferre com os gatos, em tradução livre. A constatação que salta aos olhos é a doença compartilhada entre o psicopata e os heróis do documentário.

A influência das redes sociais

A cada postagem, da qual a série mostra trechos, Magnotta, obcecado por fama, passava a acumular comentários em sua página do Facebook em volumes que poucos políticos e artistas conseguem. Muito rapidamente, o exibicionista entende que um dos segredos do crescimento de sua audiência revoltada eram as pistas que levariam os usuários a descobrir a verdadeira identidade por trás do perfil falso que usava para publicar suas obras de crueldade contra gatinhos.

De fato, os usuários passaram a se dedicar obstinadamente a seguir usando, como o criminoso, as ferramentas das redes para localizar a celebridade do mal, enchendo sua página de mensagens do tipo “vamos te encontrar”, “estamos no seu encalço”, “quando te pegarmos, vamos fazer o mesmo com você”. A plateia estava montada, crescendo exponencialmente em grupos de pessoas que, assistiam, baixavam e reviam dezenas de vezes os vídeos criminosos, segundo eles, para não perder nenhum detalhe que pudesse levar ao odioso torturador assassino.

O documentário da Netflix mostra como as pessoas ficaram obcecadas em achar Magnotta. Foto: Reprodução

A que horas da caça de dois anos a polícia foi acionada o documentário não deixa claro. Dois dos justiceiros apenas toparam mostrar a cara e contar da aventura ao diretor Mark Lewis. E apenas uma concordou em revelar seu verdadeiro nome, Deanna Thompson, funcionária de um cassino em Las Vegas, que praticamente deixou a vida de lado para se ocupar a seguir os passos deixados, claramente de propósito, pelo jovem canadense.

Dona de perfil com foto e nome falso, ela conta em determinada altura da narrativa se deu conta de que sua perseguição alimentava a produção e exibição das crueldades do postador de vídeos de violência e morte reais. Ela se volta para a câmera e compartilha com o expectador da Netflix a responsabilidade de alimentar a doença do psicopata do Facebook.

De fato, é no momento que Magnotta entende a extensão da mobilização para acha-lo que ele grava e posta o aviso de que seu próximo alvo será humano. Não é preciso grande estudo de psicologia para entender que o criminoso era atendido no que queria quando via o volume de cliques e comentários aumentar: mais atenção. E consegue: sua audiência da rede social enlouquece. Os grupos de caçadores já estavam na casa dos milhares. A ameaça não era de torturar e matar uma pessoa. Era a de filmar a tortura e a morte de uma pessoa e postar nas redes. Ele vivia o auge de seu sucesso. Enquanto isso, as redes sociais mantinham todos os vídeo disponíveis.

O que acontece nas redes sociais fica nas redes sociais

Os entrevistados reclamam que tentaram avisar autoridades, até guardaram as mensagens enviadas pelo Facebook de seus perfis falsos para a polícia. Não passou pela cabeça de ninguém passar a mão no telefone para o 190 local? Não. É como se para os inquilinos das redes sociais, essa terra de leis próprias e tortas, o que acontece nas redes sociais, se resolve nas redes sociais.

Mas não foi o que aconteceu. Lucas Magnotta, claramente ciente da perseguição que sofria, das câmeras de segurança que o estavam filmando, cumpriu a promessa ao público: matou e esquartejou na madrugada de 25 de maio de 2012 o estudante chinês Lin Jun. Foram postadas imagens onde o assassino faz carinho na cabeça decepada na banheira do quarto alugado para passarem a noite.

E é só a essa altura do enredo que a polícia é envolvida. Um morador da vizinhança foi tirar o lixo de casa e ficou curioso ao encontrar uma mala trancada a cadeado na lixeira. Abriu por curiosidade (ele é um dos entrevistados do documentário), encontrou pedaços de um corpo humano e ligou para o departamento de homicídios local.

Magnotta esperou o julgamento assistindo a imensa repercussão do caso e a comoção com a despedida da família chinesa no funeral do filho esquartejado. Agora, seu rosto estava exposto também fora do Facebook. Muitos canais de TV o chamaram à época de serial killer. Mas além dos gatos e de um cachorro, consta que ele matou apenas Lin Jun. E o único denominador comum entre os crimes foram as postagens no Facebook.

Ele está preso no Canadá desde 2013. É considerado celebridade pelos colegas de cárcere, onde casou e, dizem, leva uma vida de luxo – tudo que ele quis a vida toda, e conseguiu pelo Facebook. E hoje vê seu nome de volta às manchetes pelo sucesso da série da Netflix. Sem esses palcos, talvez Lin Jun não tivesse sido assassinado, cortado em pedaços guardados em uma mala de mão em frente de uma câmera de segurança. Que, aliás, a série reproduz mostrando o assassino ajeitar os cabelos antes de entrar em cena para concluir seu roteiro.


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