Você já ouviu falar da Economia da Ansiedade?

Da preocupação com o bem-estar pessoal, passando por anseios profissionais e até com a crise climática: quase ninguém escapa da ansiedade – e também dos produtos que rentabilizam com ela

Fazer você relaxar e desestressar também é um negócio, sabia? A tal Economia da Ansiedade cresce na medida em que o lifestyle adotado na vida moderna nos espreme entre extensas horas de trabalho, incertezas políticas e econômicas e, claro, pouco ou nenhum tempo para o ócio ou o descanso. Soma-se a isso a pressão por comer e dormir bem, ser bem-sucedido na carreira, encontrar um grande amor, estudar… E se tem o combo perfeito para alimentar uma série de produtos criados para nos colocar de volta “no eixo”, é esse. Aplicativos para dormir melhor, meditar ou controlar o tempo; retiros de mindfulness e cursos de autoajuda ou autoconhecimento são apenas alguns dos exemplos de como seu dinheiro pode ser gasto nesse tipo bem específico de economia.

A expressão Economia da Ansiedade foi mencionada em um relatório sobre cultura e comportamento publicado pela think tank Wunderman Thompson no ano passado e já ganhou o mundo. O termo se refere, justamente, a essa retroalimentação que existe entre um cenário de vida que nos deixa cada vez mais ansiosos para depois oferecer uma “saída” (parcial) para isso.

“A expressão se refere ao mercado de produtos e serviços cuja demanda depende da ansiedade do consumidor”, explica Guilherme Spadini, psiquiatra, Mestre em Ciências pela Universidade de São Paulo e professor da The School of Life, em São Paulo. Para ele, a definição carrega algo de nefasto em si: “Dessa forma, o termo tem um sentido meio nefasto. Ele nos leva a refletir que se pudéssemos viver totalmente livres da ansiedade não haveria a demanda que alimenta essa economia. Só que não é possível acabar com a ansiedade. De algum modo, sempre vai haver uma economia da ansiedade, porque nós sempre teremos o desafio de lidar com ela, que é algo natural do ser humano, existencial”, explica ele.

Com o Brasil ocupando o primeiro lugar na lista da OMS (Organização Mundial de Saúde) em número de pessoas ansiosas do mundo – cerca de 19 milhões de pessoas afirmam conviver com esse transtorno -, não é de se espantar que, por aqui, essa economia encontre grande espaço para crescer. Para citar os Estados Unidos, por exemplo, e entender a magnitude dessa demanda, a consultoria Global Wellness Institute estima um mercado de US$48 bilhões apenas no que se refere a manter o bem-estar no ambiente de trabalho (como criar programas para melhorar a saúde física e mental dos colaboradores). Por aqui ainda não há dados compilados especificamente para essa área de mercado, mas claramente há espaço para ela crescer.

Mais complexo do que parece

Mas a Economia da Ansiedade pode esconder uma falsa ideia de que com o app certo ou a rotina vegana e yogi do momento você consegue resolver uma questão que, muitas vezes, pode ser sintoma de distúrbio mental. Por isso mesmo, é preciso ter olhar crítico e ficar atento: “O problema acontece quando esse mercado passa a oferecer soluções mágicas, falsas esperanças, métodos ineficazes. A ansiedade patológica, aquela que causa sofrimento significativo e perdas no funcionamento social e profissional, necessita de atenção especializada”, alerta o psiquiatra Guilherme Spadini. “Desde que as pessoas que precisem desse tratamento mais criterioso consigam ter acesso aos cuidados necessários, eu vejo com bons olhos a existência de uma variada oferta de produtos e serviços que possam nos ajudar a lidar com as ansiedades normais do dia a dia”, diz.

Ele também alerta para as questões impostas pela chamada “vida moderna”: “A forma como vivemos em sociedade tem se transformado com assustadora rapidez. As mudanças vêm acontecendo de forma cada vez mais intensa e acelerada desde a Revolução Industrial, e o advento da internet e das redes sociais é só a última fase desse processo, até aqui”, explica Spadini.

“Acontece que, psicologicamente, nós não somos capazes de mudar tão rápido quanto a tecnologia. Nossa psicologia se desenvolveu a partir das interações familiares e em pequenas vilas. De repente, nos vemos conectados ao mundo inteiro, nosso trabalho e nossas relações interpessoais não conhecem mais fronteiras. Nós não temos mais que nos recolher ao anoitecer, não dependemos mais dos ciclos naturais. Isso vale para qualquer sociedade moderna”, comenta o especialista sobre o impacto da nossa atual rotina sobre nossa ansiedade.

É possível viver no equilíbrio?

Essa economia chegou para ficar e, até que se mude completamente o estilo de vida nas grandes cidades, principalmente, ela ainda tem muito combustível para gastar. Por isso mesmo, é interessante pensar sobre a ansiedade em si e suas consequências dentro do sistema social que vivemos agora. E minimizar possíveis gatilhos para isso, como o uso excessivo das redes sociais, por exemplo.

“Eu não sou pessimista como alguns especialistas que veem uma ameaça à sobrevivência da humanidade nesse desenvolvimento tecnológico (como no famoso documentário ‘O Dilema das Redes’). Eu acredito que o mesmo desenvolvimento tecnológico que nos traz tanta ansiedade também permite um crescimento cultural e econômico que nos dará meios de nos adaptar. Precisamos prestar mais atenção ao tema, estarmos mais conscientes do que nos faz bem, e do que nos faz mal, para desenvolvermos a capacidade de lidar com os recursos tecnológicos de que dispomos com mais sabedoria”, diz o psiquiatra.

No final, aquela velha máxima que nos lembra que o problema não é a tecnologia criada em si – mas o que os seres humanos vão fazer com ela – pode responder as questões impostas pela Economia da Ansiedade: “Por isso acredito que não seja só um meio de ganhar dinheiro com a ansiedade alheia, mas um fenômeno que indica essa demanda, natural, de aprendermos a lidar com um mundo novo”, explica Guilherme. “É verdade que esse mundo está nos massacrando e estamos muito mais ansiosos. Mas também estamos mais atentos e demandando formas de aprender a lidar melhor com nossa nova realidade. Pode ser difícil separar o joio do trigo, é claro. Com tantas ofertas de meios de lidar com a ansiedade, é difícil saber o que está ajudando e o que está atrapalhando. Mas, com o tempo, teremos cada vez mais clareza sobre tudo isso”, completa.

Enquanto passamos por esse processo, quem produzir os melhores apps para lidar com o estresse parece sair ganhando. Do lado do consumidor, o importante é aprender a desacelerar. “Jamais seremos mais conscientes, atentos e deliberados se nunca pararmos para pensar. Como disse o filósofo romano estoico Sêneca: ‘O vento nunca sopra a favor de quem não sabe aonde vai'”, finaliza o especialista.


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