Hotéis pelo mundo estão virando escritórios ou moradias de longa temporada

Crise no setor do turismo e crescimento do home office podem trazer para o setor da hotelaria outras funções além da simples cobrança de diárias pelo uso de instalações

Assim que o verão acabou na Espanha, começou a ser possível ocupar os quartos de hotel com outros tipos de hóspede. Eles agora surgem para trabalhar ou para morar, por temporada, inclusive em instalações de luxo, pagando um preço fixo ao mês. De escritórios a moradias, hotéis pelo mundo tentam encontrar novos usos para suas instalações, em um ano marcado pelos confinamentos decorrentes da pandemia de Covid-19 e ausência de turistas.

A ideia em terras espanholas é atrair, por exemplo, profissionais de outros países da Europa que possam trabalhar remotamente para aproveitar as paisagens, o tempo relativamente bom no outono-inverno e a gastronomia local. Um hotel de luxo da rede Gallery Hoteles, na região de Málaga, contou ao site espanhol “El Diário” que removeu camas de cerca de 10 quartos para transformá-los em uma espécie de coworking, enquanto turbinou as instalações de outros para que quem os ocupasse fosse capaz de “sentir-se em casa”.

Esse é o conceito de homtel (palavra que mistura home, que significa casa em inglês, com hotel), que tenta atrair quem quer as comodidades hoteleiras, como serviço de quarto e café da manhã de encher os olhos, sem enfrentar as burocracias dos aluguéis de temporada comuns.

Para isso, o preço – antes cobrado em diárias – virou uma mensalidade, com direito a pedir seguro. Para ficar em um confortável quarto de 25 metros quadrados, com direito a balcão exterior, café da manhã, limpeza e lavandaria duas vezes por semana, além de ginásio e piscina disponíveis, esse hotel de Málaga cobra 700 euros mensais, cerca de R$ 4500. Em Barcelona, hotéis aceitam reservas para esse tipo de hospedagem pelo menos até março de 2021, quando devem reavaliar se mantém ou não a oferta. De acordo com a publicação espanhola, hotéis de luxo faturam hoje menos da metade do que há um ano.

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No hotel, mas só das 9h às 18h

Em outros países a ideia é usar as instalações hoteleiras quase como um co-working mesmo, reforçando o conceito de co-living e abrindo possibilidades para profissionais individuais ou até mesmo times de empresas ficarem no local durante a jornada de trabalho. Com diversas grandes empresas questionando a necessidade de se voltar ao escritório “normal”, mesmo após o controle da pandemia de Covid-19, essa saída que se apresenta, por enquanto, como provisória pode ser definitiva.

No bairro do Brooklyn, em Nova York, o descolado Wythe Hotel, que tem janelas voltadas para Manhattan, fez uma parceria com um designer para ajustar um andar inteiro de quartos, transformando-o em escritórios para alugar. Foram colocadas escrivaninhas, cadeiras próprias para se trabalhar horas sentado e iluminação especial. Pelo preço de US$200 por dia é possível ocupar um desses 13 quartos com serviços de impressão, Wi-Fi, acesso digital ilimitado ao The New York Times, além de café e doces de cortesia.

Já em Los Angeles, no bairro luxuoso de Beverly Hills, o hotel The London West Hollywood criou também escritórios privados que podem ser alugados mensalmente e cujo foco é atrair empresas que queiram manter seus times trabalhando próximo, sem investir em imóveis ou salas comerciais.

De acordo com a Wunderman Thompson, a pandemia fez crescer essa modalidade de aluguel a curto prazo, seja para o setor de turismo ou mesmo de moradia. Até restaurantes estão entrando na onda de alugar seus espaços, já que este também é um tipo de negócio bastante afetado, até o momento, pela chegada do novo coronavírus.

O proprietário do Wythe Hotel confirmou, em entrevista para o portal Fast Company, que não deve retroceder nas alterações que fez: “Acho que essa é uma mudança fundamental e será durável, permitindo aos funcionários trabalharem em qualquer lugar”, disse. Resta saber se no Brasil essa aposta também pode pegar.


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