A contratação de colaboradores pela experiência nem sempre é a melhor opção

Avaliar outros tipos de habilidades pode contribuir para o desenvolvimento e a inovação da empresa

A contratação de colaboradores pela experiência nem sempre é a melhor opção

Durante décadas, o tópico “experiências” foi um dos mais importantes no momento de avaliação de um currículo por um recrutador na hora da contratação de colaboradores. Afinal, em teoria ao menos, o candidato com alguma vivência na função pretendida deveria saber mais do que um outro sem experiência alguma.

Essa ideia está cada dia mais sendo deixada de lado, principalmente por grandes organizações que entendem que existem outros pontos importantes a serem valorizados além da experiência. É o caso das soft skills, aquelas habilidades relacionadas ao dia a dia do trabalho que vão além do conhecimento técnico.

O lado humano é cada dia mais valorizado, confirmando a veracidade da famosa máxima do ex-presidente da Porsche, Peter Schutz: “contrate caráter, treine habilidades”. O colaborador sem experiência pode aprender o que deve fazer, mas se for uma pessoa fechada e difícil integrá-la pode ser mais trabalhoso do que parece.

Para saber o que levar em consideração, Paulo Exel, managing director da Yoctoo, empresa especializada em recrutamento, explica que o primeiro passo é a empresa entender qual a sua necessidade, ou qual o problema que precisa resolver. “Dentro disso, inúmeros perfis já estarão aptos. A partir daí, o recrutador pode olhar as hard skills (técnica, experiência) ou as soft skills (as habilidades)”, explica.

Segundo ele, as empresas precisam enxergar se a vaga exige, de fato, esse conhecimento técnico, a experiência ou as soft skills e, assim, tomar sua decisão de contratação de novos colaboradores.

Outro ponto importante é que o recrutador responsável precisa ter informações sobre a equipe e, em parceria com os gestores, analisar os perfis que mais se encaixam com as necessidades – e nem sempre será o conhecimento técnico. Isso porque habilidades como liderança, organização, proatividade e espírito de equipe são alguns exemplos de habilidades que podem ser necessárias e que não exigem, obrigatoriamente, uma experiência prévia.

Os benefícios de não olhar apenas para a experiência

“O principal benefício que eu vejo, sem dúvidas, é trazer diferentes experiências de vida para dentro da empresa. Isso é primordial para se ter inovação e novas ideias”, opina o diretor da Yoctoo. Essa diversidade de visões, segundo ele, pode contribuir positivamente com a rotina da empresa, assim como sua cultura organizacional.

Esses benefícios aparecem aos poucos, já que as novas contratações também acontecem, geralmente, a longo prazo. “Nós estamos caminhando para um modelo de mundo em que a questão humana tem um valor cada vez mais preponderante”, afirma.

A diversidade conquistada não é apenas de habilidades, mas também de vivências. Segundo Paulo Exel, quando uma empresa abre mão de considerar apenas a experiência na hora da contratação, ela abre espaço para que haja mais diversidade de cores, gênero, renda e muito mais, pois considera que nem todos tiveram a mesma oportunidade técnica. “Quando estamos falando de diversidade, estamos falando de inovação também, o que é outro ponto muito importante para qualquer empresa”, diz.

Mesmo entendendo esses benefícios, muitas empresas ainda relutam em mudar essa visão na hora da contratação de profissionais. Entre as razões, é ter uma ideia mais tradicional do mercado de trabalho, ou, em alguns casos, necessitar de conhecimento técnico especializado em praticamente todas as vagas. Por isso, Paulo explica que algumas áreas de atuação apresentam mais facilidade nesse quesito. Um dos exemplos é o mercado de tecnologia.

“Existe muita demanda para o mercado de tecnologia no Brasil e poucos profissionais, ainda menos quando é para um cargo mais especializado, que trabalhe com algo específico. Então, isso abre espaço para que essas empresas contratem a partir das habilidades e experiências de vida. O que as empresas fazem, a partir disso, é treinar os contratados e investir no conhecimento deles já dentro da companhia”, explica.

Isso já é comum em grandes empresas, comenta o diretor da Yoctoo. “Se você busca um ambiente mais diverso dentro da empresa, dentro dos critérios que você está selecionando, você tem que abrir mão de algumas coisas”.

A contratação de colaboradores no futuro

Levar em consideração apenas a experiência pode não ser uma boa ideia, mas considerar apenas as habilidades, também não. O ideal, na visão de Paulo Exel, é equilibrar as expectativas e pensar estrategicamente nas contratações, mas considerar a possibilidade de poder treinar o candidato posteriormente, o que pode ser ainda mais proveitoso para a empresa. “Esse equilíbrio é importante pois vemos que muitas empresas preferem contratar pelo hard skill, mas acabam demitindo pelo soft skill”.

Outra questão relativa a isso é que empresas que consideram as soft skills além da experiência estão indo de encontro com o que grandes empresas já propõem e o que promete ser tendência no futuro. Hoje, profissionais com valores alinhados são os mais buscados, pois entende-se que suas ações dentro da companhia estarão mais integradas com os dos outros e com o esperado. Portanto, isso passa a ser um fator preponderante, ainda mais que a própria experiência.

Segundo Paulo Exel, ainda se nota uma relutância nessa questão por parte de pequenas empresas ou aquelas mais tradicionais, que não querem abrir mão dos processos antigos de contratação, seja pelo seu tamanho e risco, ou por sua natureza de trabalho. “O que se vê em negócios assim é pensar diferente em cargos de base, o que já é algo interessante”, diz.

Sendo comum ou não, as tendências do mercado de trabalho mostram cada vez mais a importância de outras características de vida e conhecimento na hora da contratação dos colaboradores, sendo algo a ser pensado pelas empresas que desejam mudanças em sua cultura e organização, como explicou o diretor da Yoctoo.


+ Notícias

Jornada longa, relação longeva: o segredo da MRV para o atendimento

Caminhos para fomentar um ambiente colaborativo nas empresas






Acesse a edição:

MAIS LIDAS

VEJA MAIS

ÚLTIMAS

VEJA MAIS