Cérebro pandêmico: as consequências do estresse crônico para as nossas vidas

Conheça os efeitos da pandemia no humor e na cognição e saiba o que fazer para amenizá-los

Foto: Shutterstock

Se no último um ano e meio você já sentiu ou vem sentindo sintomas como dificuldade de concentração, falhas de memória, mudanças de humor, aumento da ansiedade e até sintomas depressivos, saiba que isso tudo pode ter sido desencadeado pela pandemia de covid-19. Esses efeitos são tão comuns nas populações que alguns cientistas batizaram o fenômeno de “cérebro pandêmico” e estão em busca de medidas que possam amenizar as consequências de ficar tanto tempo sob situação de estresse.

Os cientistas afirmam que será necessário tempo e pesquisa para descobrir todas as consequências de longo prazo da pandemia para a saúde mental global e o bem-estar emocional. Mas alguns estudos já mostraram que, além de alterar a química no cérebro, o estresse crônico tem provocado mudanças físicas também.

“O estresse repetido é o principal gatilho para a inflamação persistente no corpo, que também pode afetar o cérebro e reduzir o hipocampo e, portanto, afetar nossas emoções. O estresse também pode afetar os níveis de serotonina e cortisol no cérebro, o que pode afetar nosso humor. Eventualmente, essas mudanças podem causar sintomas de depressão e ansiedade”, dizem os pesquisadores Barbara Sahakian e Christelle Langley, da Universidade de Cambridge, e Deniz Vatansever, da Universidade de Fudan, em artigo publicado no website The Conversation.

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Como o cérebro pandêmico afeta o nosso dia a dia

Nem todo mundo vai sentir esses incômodos, que dependem de diferentes fatores para aparecerem. Uma minoria da população conseguiu, inclusive, se adaptar bem no isolamento, mantendo-se ativos, produtivos e cultivando relacionamentos, no entanto a maior parte tem apresentado as características do cérebro pandêmico.

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“Esses problemas afetam principalmente quem já tinha predisposição: pessoas que, antes da pandemia, já tinham medo de frequentar lugares públicos ou de contrair alguma infecção, ou que tinham o hábito de lavar as mãos muitas vezes, por exemplo, acabam sofrendo mais numa situação como esta. Já havia uma vulnerabilidade psicológica e os fatos tornaram a vulnerabilidade ainda maior”, explica o psiquiatra Arthur Guerra, do Hospital Sírio-Libanês.

O grande problema é que não é possível prever quando a situação vai mudar. Por isso, continuamos expostos à liberação excessiva de cortisol, o hormônio do estresse, enquanto há preocupação em não contrair ou espalhar o vírus, medo de perder o emprego, isolamento social e solidão.

“Nunca havíamos vivido uma pandemia dessa proporção. É um estresse crônico e não sabemos como isso vai acabar – ninguém tem previsão. Se alguém disser que, por exemplo, em outubro deste ano vamos voltar a ter uma vida normal, está mentindo. Há um ano, não sabíamos que hoje estaríamos nessa situação atual, da mesma forma que não sabemos o que vai acontecer nos próximos meses”, afirma o psiquiatra.

Nas pesquisas realizadas na Universidade de Cambridge para investigar os efeitos da pandemia na saúde mental, a neuropsicóloga Barbara Sahakian detectou mudanças no volume de várias regiões cerebrais de pessoas socialmente isoladas.

No cotidiano, isso pode provocar desde incômodos como esquecer o que precisava pegar no mercado, não conseguir se concentrar no trabalho, ter variações de humor e dificuldades para tomar decisões, até problemas mais graves como transtornos de ansiedade, depressão e medo.

Covid longa: os efeitos da infecção na cognição e emoção

A pandemia tem afetado o cérebro independentemente de a pessoa ter contraído covid-19 ou não. Contudo, no caso de quem já teve a infecção, além das mudanças provocadas pela situação de pandemia, é preciso levar em conta ainda as sequelas causadas pelo coronavírus.

“Geralmente, quadros de infecção têm começo, meio e fim e não deixam sequelas. A covid-19 nos deixou surpresos pois tem provocado efeitos em vários órgãos incluindo o cérebro. Os problemas variam de paciente para paciente e eles podem apresentar ansiedade, perda de memória, dificuldade de concentração, entre vários outros sintomas”, revela Arthur Guerra.

Segundo os pesquisadores, há uma série de razões para as alterações cerebrais, incluindo inflamação e eventos cerebrovasculares (causados pela interrupção do suprimento de sangue ao cérebro durante a infecção). Ainda não é certeza, mas eles também sugerem que a covid-19 altera os níveis de dopamina e outros neurotransmissores, como serotonina e acetilcolina, envolvidos na regulação de sono, fome, humor, atenção, aprendizado e memória.

O psiquiatra explica que, mesmo após os exames não indicarem mais a presença do vírus, os sintomas perduram e podem fazer o paciente mudar de comportamento mesmo semanas após a infecção. Ainda não é possível saber, também, quanto tempo vai levar para que as pessoas se recuperem dos efeitos, tanto da contaminação por covid-19 quanto da vivência prolongada na pandemia. “Estamos tentando tratamentos clássicos, como medicamentos antidepressivos e psicoterapia, que podem funcionar para uns e para outros, não. O ideal é avaliar cada caso”, complementa o especialista.

É possível amenizar as consequências?

Neuroplasticidade é o nome que se dá à capacidade do sistema nervoso de modificar sua estrutura, adaptar-se e moldar-se conforme somos expostos a diferentes experiências. Assim, a tendência é que o cérebro pandêmico volte ao normal aos poucos, conforme vamos incluindo novamente na rotina os hábitos que possuíamos antes.

Porém, enquanto isso não é possível, existem algumas medidas capazes de aliviar estresse, ansiedade e outros prejuízos. Hábitos saudáveis, como prática regular de exercícios físicos, alimentação saudável e horários definidos para dormir e acordar ajudam em qualquer ocasião.

“O esporte tem ajudado muito como parte de um tratamento intensivo”, destaca o psiquiatra. Além disso, a prática de meditação e mindfulness também vem sendo relatada como benéfica para a memória, atenção e humor. A técnica do mindfulness é ter foco total no momento presente, o que ajuda a aliviar a ansiedade e trabalhar a cognição.

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Para Arthur Guerra, o primeiro passo para a manutenção da qualidade de vida é confiar nas recomendações médicas e continuar se protegendo com o uso de máscara, distanciamento social, higienização correta e, o mais importante, a vacinação. “Tendo tudo isso claro, é hora de buscar ajuda caso você esteja sentindo que a ansiedade e o estresse estão se tornando patológicos. Procure orientação médica, peça ajuda para as pessoas próximas, os amigos, familiares, o líder no trabalho que, por conviverem juntos, saberão dizer se há algo errado com o seu comportamento e colaborar no que for preciso”, indica.

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