Síndrome de Burnout e o esgotamento profissional

Sob pena de serem responsabilizadas, empresas que ainda ignoram as questões de saúde mental de seus colaboradores deverão ficar atentas

Foto: Pexels

Uma doença que já preocupava colaboradores voltou a preocupar (inclusive empresas): a Síndrome de Burnout.  Desde o início de 2022, com a nova classificação da Síndrome de Burnout como doença ocupacional pelo Ministério da Saúde, a síndrome deixou de ser tratada apenas como um distúrbio psíquico, passando a ser definido como “estresse crônico de trabalho que não foi administrado com sucesso”.

Por isso, as empresas passaram a ficar mais atentas à saúde mental de seus empregados, sob pena de serem responsabilizadas pelos eventuais danos físicos, morais e patrimoniais causados pela doença, também denominada de Síndrome do Esgotamento Profissional.

Uma pesquisa da Kenoby com profissionais de recursos humanos (RH), mostrou que 93% deles disseram que as empresas ainda ignoram as questões de saúde mental. Entre os entrevistados, 53,4% não sabiam dizer se a empresa pretende investir em saúde mental. Outros 35% responderam que o investimento virá em menos de um ano.

Para a reitora da Faculdade Instituto Rio de JaneiroFIURJ, Carla Dolezel, a inclusão da Síndrome de Burnout como uma doença ocupacional em que o trabalho é o fator de risco, as empresas devem ter atenção e cuidado no oferecimento de um ambiente de trabalho saudável e seguro para os seus empregados.

“As empresas devem estabelecer um programa de prevenção de riscos adequado, oferecendo um ambiente de trabalho limpo, organizado, bem ventilado e iluminado, com móveis em formato ergonômico”.

Segundo Dolezel, as empresas também devem adotar em seus programas de compliance meios de prevenção ao assédio e à fadiga física ou mental de seus empregados, evitando cobranças exageradas, jornadas de trabalho excessivas, remunerando corretamente as eventuais horas-extras ou concedendo compensações com folgas e atrasos, respeitando os intervalos legais e os descansos semanais e anuais de seus empregados.

“É importante destacar que a responsabilização das empresas no Judiciário deverá se basear em laudo médico que comprove que o colaborador sofre com o estresse crônico de trabalho, além do histórico e da avaliação do ambiente laboral, incluindo relatos de testemunhas”, afirma Carla.

Direito do trabalhador

A advogada alerta que com o diagnóstico do Burnout é direito do trabalhador a emissão de CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho) pela empresa e o encaminhamento desse empregado para realização de perícia ao INSS, onde será verificado a necessidade ou não de afastamento do trabalho por tempo superior a 15 dias.

“Caso o afastamento seja superior a 15 dias com percepção de auxílio doença acidentário pelo INSS, após o retorno ao trabalho do empregado doente, este terá direito à estabilidade provisória no emprego pelo período de 12 meses subsequentes, não podendo ser dispensado sem justa causa, sob pena de a empresa ser obrigada a pagar indenização relativa aos salários desse”, assegura Carla.

Especialistas em saúde mental alertam

Os especialistas alertam que as empresas devem promover campanhas educacionais internas sobre saúde, estimulando e até proporcionando aos seus empregados condições para a prática de atividades que evitem o desenvolvimento da Síndrome de Burnout.

Terapia, a prática de meditação, yoga, tai chi chuan, entre outras atividades podem ser uma forma de evitar lesões por esforço repetitivo e minimizar o estresse físico e mental decorrente do trabalho.

O terapeuta e filósofo clínico, Beto Colombo, comenta que o dia a dia no mundo corporativo é exigente ao extremo e a pressão por performance e comportamento pode levar a esse desgaste emocional.
“Muitas pessoas são exímias profissionais, já conheci doutores em planejamento estratégico, mas que não sabem planejar suas questões pessoais e existenciais”.

Colombo aconselha que quando notarmos que estamos misturando o papel de empresário ou colaborador com o papel de pai, filho, marido, falando sempre de trabalho em todos os lugares, é um sinal de que essa pessoa não está sabendo dividir os papéis existenciais e precisa de um suporte clínico.

A busca pela meta impossível

A busca pela meta impossível pode causar esgotamento extremo e é aí que pode surgir a Síndrome de Burnout, explica Bettina Correa, psicóloga da Iron Saúde Digital.

“Esse transtorno psíquico é comum de ocorrer em profissionais que passam por muitos momentos de tensão, pressão extrema e que exigem um grande envolvimento do indivíduo para realizar, seja de forma física, emocional ou psicológica”, explica.

O ideal, segundo Bettina, é que a pessoa que identifique qualquer sinal de esgotamento e estresse relacionado ao trabalho já busque ajuda profissional antes mesmo do quadro se agravar.

“Além de tratar, é possível evitar esse transtorno buscando formas de alívio da tensão, praticando atividade física, tendo momentos de lazer e socialização e buscando uma boa qualidade de sono”, finaliza.
Mito da Resiliência Corporativa

De acordo com Roberto Aylmer, médico psiquiatra, PhD, professor e especialista na gestão de pessoas, a relação entre os colaboradores e empresa é pautada por um código não declarado de trocas chamado de “Contrato Psicológico”.

“A percepção do quanto a empresa cuida e realmente se importa com seus colaboradores demanda comprometimento e engajamento. No entanto, quando uma empresa espera mais esforço do que a capacidade de um colaborador chamando isso de “resiliência”, é possível que ele tente atender à demanda para não perder seu emprego, mas esse esforço extra vai desgastar a relação de confiança mudando o tom desse ‘contrato’”, explica Aylmer.

Para o especialista, “a resiliência diminuiu, a demanda não”. “A conta não fecha. Esta é uma das causas da explosão de casos de Burnout e acidentes de trabalho que estamos vendo”, avalia.

Segundo Aylmer, devemos ficar atentos com a falsa sensação de que estamos “voltando ao normal”. “Nunca mais voltaremos àquele normal…estamos buscando um ‘próximo normal’ em que haja mais previsibilidade, mas ainda não chegamos lá. E por isso é mais justo e lógico pensarmos em como criar uma organização que cuide das pessoas no meio das tempestades e que não as jogue no mar como se fosse um lastro de navio que pode ser descartado”, alerta.

Aylmer lembra ainda que é preciso ouvir mais a operação, buscando mapear toda forma de pressão desnecessária e reduzir todas as rotinas que não agreguem real valor para o negócio. “Chamamos isso de Inteligência Coletiva, porque as respostas vêm do grupo. Ouvir (de verdade) as equipes operacionais pode ser a estratégia central para aumentar a efetividade dos resultados e da segurança”, acrescentando que o contexto COVID certamente será lembrado como um ponto de inflexão na história das organizações.

Todo esse cuidado e iniciativas servem para que as empresas busquem uma melhor relação de trabalho e de prevenção para os riscos não só da Síndrome de Burnout, mas de tantas outras enfermidades e abusos que, “maquiados” ou não tratados, afetam gradativamente a saúde de colaboradores e consequentemente a saúde da própria empresa.


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